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Mas depois tenho dias como ontem, em que vejo num restaurante uns pais em amena cavaqueira com os amigos enquanto o puto brinca com o extintor, tentando desactivar a patilha de segurança com as mãos e com a cara mesmo em frente à zona de saída do gás, e dou por mim a pensar: se estes idiotas conseguem manter uma criança viva, eu também hei de conseguir.

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Fala-se sobre o pós-parto, e eu finalmente percebo porque é que só começamos com as aulas na recta final da gravidez: porque é assustador.

 

 

Saímos da aula e o meu único pensamento era: parem o carro que eu quero sair.

 

 

E agora??

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Então e esse bebé?

por Mia, em 29.06.17

Ora, ainda bem que perguntam. Com 34 semanas de vida (pela contagem inicial), esta pequena lontra pesa quase 3kg, e a tendência é continuar a aumentar. Continua a medir mais de duas semanas à frente, e já é possível observar movimentos respiratórios, o que faz com que o bichinho tenha soluços todos os dias. Faz as caras mais fofas, deita a língua de fora e mexe aquelas bochechas gordas como se estivesse a comer. Tem uma cabeça enorme!

 

Eu? Eu estou em pânico, ora essa. O meu ganho de peso é neste momento inferior ao ganho dele, o que significa que esta lombriga não só rouba tudo que eu como, mas ainda me vai buscar as reservas - eu já desconfiava - e por isso nem há dieta que me valha, e isto vai mesmo acontecer: vou ter um bebé gigante. Como?? Pois. Quando descobrir conto-vos.

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Obrigada, obrigada

por Mia, em 29.06.17

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Ele...

por Mia, em 28.06.17

...atura-me quando choro sem motivo ou estou mal humorada e odeio o mundo.

 

...levanta-se para me ir buscar água/comida/qualquer coisa, mesmo que tenha acabado de se sentar.

 

...pergunta-me sempre se eu quero ajuda para me levantar, quando me vê a espernear feita tartaruga. E ajuda-me, mesmo que eu às vezes sinta que uma grua não era suficiente.

 

...trocou de emprego para poder deixar de viajar e estar em casa connosco, todas as noites, mesmo que isso tenha sido uma facada na sua carreira.

 

...chega a casa e tem paciência para se sentar comigo a conversar, mesmo que eu não tenha nada de especial para dizer e só queira companhia porque passei o dia sozinha, e os meus assuntos sejam tão profundos como "hoje lavei duas máquinas de roupa".

 

...faz o jantar muitas vezes, apesar de ter um dia de trabalho no lombo, compreendendo que eu passei o dia em casa deitada mas tenho dores/estou enjoada/estou fraca.

 

...vem sempre que o chamo para matar um bicho.

 

...continua a olhar para mim com os mesmos olhos e a dizer-me que sou linda, mesmo que eu esteja gorda, corada e despenteada.

 

 

Ele ainda não se apercebeu bem do que vem aí, mas eu tenho a certeza de que ele vai ser tão excelente como pai, como é marido.

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Perdoem-me os que me lêem que são apologistas desta filosofia. Acho que ninguém consegue viver fugindo constantemente dos conflitos, que eles não deixam de existir só porque os resolvemos ignorar. Um problema não se resolve só por lhe virarmos as costas, e aquilo que não enfrentamos consome-nos a alma. Tive em tempos uma suposta grande amiga que dizia, precisamente, não gostar de conflitos. O que lhe aconteceu? Bem, da primeira vez que nos chateámos saiu da minha vida. Fui atrás, tentei conversar - sou de agarrar o touro pelos cornos e não de fugir dele. Mas quando um não quer, dois não dançam, e inevitavelmente tive que a deixar ir. Custou-me perder aquela amizade, e sei que para ela também não foi fácil, mas foi esse feitiozinho de merda e a cobardia de não enfrentar os problemas de frente que nos levaram a essa situação. Não consigo confiar em quem tem este modo de vida. Acho que este tipo de pessoa não pode ser honesto, quanto mais não seja com eles próprios.

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Estou invisível e não sei?

por Mia, em 26.06.17

Por duas vezes hoje não só não me foi dada prioridade como duas mulheres, em dois sítios diferentes, tentaram descaradamente passar-me à frente na fila.

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Pregnancy brain is real

por Mia, em 23.06.17

Imaginem o seguinte cenário, que pode ou não ser real: uma pessoa recebe um novo cartão de débito, porque o antigo está a aproximar-se do fim da validade. Cumprindo as instruções, vai à ATM mais próxima e activa o novo, inactivando automaticamente o velho. Ainda assim, por razões que desconhece, vai mantendo ambos na carteira, até que um dia, 8 meses de gravidez, em casa e sem nada para fazer resolve fazer uma limpeza e deitar fora todo o lixo que foi acumulando nos últimos tempos. Pega em ambos os cartões - que são iguais - e examina atentamente para ver qual é o mais antigo. Corta-o em pedacinhos, deita fora e segue alegremente com a sua vida. Dias mais tarde, pessoa tenta fazer um pagamento com o dito cartão e este é declinado. Assume que é problema da loja. Dias depois a mesma coisa acontece numa loja diferente. De repente cai a ficha: pessoa esventrou e deitou fora o cartão novo e manteve um cartão inactivo e fora da validade...

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Continuando no tema da mama

por Mia, em 23.06.17

Não sei se dá para reparar, mas é mesmo um assunto que me mexe com os nervos.

 

Conheço uma pessoa que embarcou numa depressão pós-parto porque não conseguia amamentar. Culpo a nossa sociedade, e acima de tudo os nossos profissionais de saúde, por isto.

No hospital, somos ensinados que não há outro caminho que não a amamentação. Que não podemos desistir. Que é a única forma de o nosso filho criar vínculo com a mãe. Que temos que gostar. Que uma mulher é menos mãe se não amamentar. Não se coloca a hipótese de a mãe não conseguir, de o leite ser fraco, de o bebé ou a mãe não o poderem fazer, ou - heresia - de a mãe não querer.

A nossa lei não permite a publicidade a leite artificial - porquê?! Quando foi que voltamos à época da censura? Quem foi que decidiu que esse assunto é tabu e não se pode falar sobre ele sob pena de as nossas crianças ficarem todas subnutridas?

Há tempos fui a um workshop de amamentação, e a responsável pela marca que patrocinava o evento explicou-nos que não nos podia mostrar os biberões e chupetas da marca porque eram "amigos da amamentação". Portanto, eu posso passar uma hora e meia a ver exemplos práticos de como utilizar todos os modelos de bomba de extracção de leite, fazer testes a discos de amamentação, experimentar creme para mamilos gretados... mas não posso ter noção de que existe um plano B se as coisas não correrem tão bem? Faz algum sentido? Como é que uma marca "amiga da amamentação" não é uma marca amiga do bebé? Como é possível defender que é preferível uma criança chorar horas a fio do que utilizar uma chupeta? E quem diz marca diz hospitais, médicos, enfermeiros. Que espécie de profissionais são estes que parece que têm palas nos olhos e não admitem soluções alternativas quando as ditas ideais não estão a fazer bem ao bebé ou à mãe?


A minha amiga nunca foi uma extremista da mama, assim como eu não sou. Mas interiorizou que seria o melhor para o seu bebé, e mentalizou-se de que o faria, no mínimo, pelo tempo recomendado pela OMS. Quando a criança nasceu, não mamava. As enfermeiras tentaram ajudar, corrigiu-se a pega, desfizeram-se as pedras causadas pela subida do leite, comprou-se uma bomba, tentou-se de tudo. E o bebé perdia peso a olhos vistos. Não dava. A insistência estava a por em risco a saúde do bebé, e ela foi forçada a desistir, e enterrou-se num buraco de desespero profundo. Porque toda a gente lhe apontava o dedo. Porque era péssima mãe. Porque não fez o que era suposto. Porque não foi suficientemente boa para o filho dela. Aquele que tinha tudo para ser o momento mais feliz da vida dela foi negro, marcado pelo falhanço, pela insegurança e pela solidão.


Gritamos aos quatro ventos que as mulheres devem ser livres de fazer o que quiserem com o seu corpo. Defende-se, por exemplo, o aborto como opção válida em qualquer circunstância, e qualquer pessoa que questione o porquê ou verbalize qualquer julgamento de valor é um insensível para com a mulher, o corpo é dela e ninguém a pode obrigar a gerar uma vida. Mas obrigar a amamentar é aceitável?

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Não quero ser má, mas.

por Mia, em 23.06.17

Em tempos tive um namorado que me disse que quando eu um dia engravidasse ia ser daquelas mulheres que engordam imenso e nunca mais recuperavam. Isto foi há mais de uma década, mas eu nunca mais me esqueci. Perguntei porquê, e ele respondeu-me que não sabia, apenas achava isso. Tempos antes tinha-me dito que achava que eu não seria uma boa mãe. E depois isto. O absurdo de tempo que passei a chorar por estes dois comentários (e pelo sujeito em questão) é isso mesmo - um absurdo.

 

Eu gostava mais dele do que de mim própria, e naquela ilusão típica do primeiro amor, tudo o que ele dizia era lei. Pois então eu não valeria nada como mãe, era o meu destino. E seria gorda depois de engravidar, uns 120kg, que nunca mais recuperaria.

 

Anos mais tarde, durante uma discussão e numa tentativa de recuperar a relação, disse-me que estava enganado. Que eu seria uma excelente mãe e não tinha dúvidas disso. Mas nessa altura ele já não era a autoridade máxima à face da terra para mim. E ainda que tenha amenizado, não curou a ferida anterior.

 

Estou grávida de oito meses e uns trocos e engordei 6kg. E vou ser uma excelente mãe. E tu estás sozinho. Chupa.

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Eu explico.

por Mia, em 22.06.17

O único argumento que aceito e que me leva a planear amamentar o meu filho é o factor nutricional e as defesas que ele vai obter através do meu leite, nos primeiros meses de vida. Ponto final. Não acredito que uma criança, depois de estar nove meses dentro da barriga da mãe, precise que se lhe enfie uma mama na boca para criar um vínculo com ela. Acho que dar amor e dar mama não são sinónimos. Parece-me absurdo que se permita que uma criança faça da mama uma chupeta, e abomino as teorias das mães que amamentam até a criança ir para a escola. Acho ridículo, e acredito piamente que após uma certa idade, essa dedicação à mama não é pela criança, mas pela própria mãe. E isso parece-me sintoma de outros problemas bem mais profundos.

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Obrigada por mais este, Sapo!

por Mia, em 22.06.17

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 Ainda que tenha tido um sabor mais amargo.

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Ainda na aula sobre amamentação aprendi que devemos amamentar sempre e nunca desistir, dê por onde der. Mamilos gretados e ao dependuro? Continuem a amamentar. Mastites? Continuem a amamentar. Sangue e lágrimas a escorrer-vos só de pensar na hora da mama? Não desistam. A criança tem dentes? Continuem a amamentar. O puto come de garfo e faca já? Mama em pé? É continuar sempre a amamentar, é a melhor bênção da vida e a única forma de o vosso filho vos amar.

 

Fundamentalistas da mama, adoro 

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O palhaço já saiu (a criança nasceu entretanto) mas foi prontamente substituído por outro. A aula sobre amamentação foi um fartote, com o cromo a desfazer-se a rir sempre que a enfermeira dizia coisas como: "mamilos duros", "apertar bem a mama", "mamas gigantes" e afins.

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Um dos casais apareceu com uma miúda de uns 8 anos. Achei parvo, porque não me parece que aquele seja o sítio ideal para uma criança, mas pensei que poderiam não ter com quem a deixar. Quando alguém referiu que eles já não eram pais de primeira viagem desfizeram-se em gargalhadas, que não, que aquela era apenas a sobrinha deles e foi lá só "para ver". Revirei os olhos.

 

Na aula seguinte lá estavam eles, outra vez, com uma nova criança. Mais uma sobrinha, explicaram, que "quis vir connosco para ver como era". Calhou de não ser a aula em que vimos o filme de um parto porque o projector não funcionava, mas pergunto-me: e se fosse? Será que é mesmo apropriado que uma criança veja isto? Será mesmo necessário sujeitar uma miuda daquela idade ao tipo de conversas que se têm naquela sala? Já nem falo do incómodo que é para quem está no curso ter que aturar uma criança impaciente a mexer em tudo, a falar, completamente irrequieta o tempo todo. O que é que esta gente tem na cabeça?

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Pedrógão Grande

por Mia, em 19.06.17

Não é muito habitual verem-me a falar dos flagelos da humanidade no blog. Não que me passe ao lado, longe disso. Não que não queira saber. Mas sinto, na maioria das vezes, ou não sei o suficiente sobre o assunto, ou que já tudo foi dito e não tenho nada de válido a acrescentar.

 

 

Ah, porque tu só falas de temas sérios, e de forma extremamente calma e ponderada - dirão alguns enquanto reviram os olhos.

Nada disso. Mas há assuntos que são, efectivamente, graves. E como tal não devem, a meu ver, ser abordados em tom de brincadeira.

 

 

Desde sábado à noite que me custa respirar - mais do que o habitual. Esta tragédia abalou-me como nenhuma outra alguma vez o fez. Tirou-me o sono, deu-me pesadelos, pos-me num estado depressivo sem explicação. Não consigo sequer imaginar o horror que aquelas pessoas terão passado, nem o inferno dos que ficaram.

Faltam-me as palavras, e sinto que qualquer outro tema que aqui aborde é demasiado pequenino. Também eu tenho as minhas teorias sobre o estado da nação e o quão evitável poderia ter sido este desfecho, mas não me parece que seja o momento de apontar dedos.

 

 

É altura de chorar os mortos, curar os feridos e fazer o luto, por isso, este blog ficará em silêncio por um bocadinho.

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Não. Aguento. Este. Calor.

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Há aquele pai que tem a mania que é engraçado. Que interrompe discussões sobre temas sérios para fazer piadinhas sem graça, que brinca com todas as situações, que corta a palavra às pessoas que estão a falar de coisas interessantes para dizer uma parvoíce qualquer. Aposto que quando andava na escola era o palhaço da turma. A grávida que está com ele vai dizendo "desculpem, ele é mesmo assim" mas noto o orgulho nos olhos dela como se ele fosse uma grande coisa. Os outros pais riem-se, as enfermeiras acham-lhe piada e vão pegando com ele. Eu? Cada aula com ele enjoa-me mais do que todo o resto da gravidez.

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Viver no campo

por Mia, em 16.06.17

Moscas. Larvas. Borboletas. Gafanhotos. Minhocas. Aranhas. Melgas. Aranhiços. Formigas. Centopeias. Lagartixas. Mosquitos. Formigas mutantes que não morrem quando as piso. Insectos cujo nome desconheço.

 

Estou pelos cabelos, sabeis lá vós da minha vida.

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Entre as grávidas e acompanhantes, um casal com o filho recém nascido. Se calhar alguém lhes devia dizer que vieram um nadinha tarde demais.

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