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Agora que - finalmente - temos cortinados nos quartos, abro as persianas sem medos. Dantes, por uma questão de privacidade, não o conseguia fazer, e por isso só agora pude reparar a sério na vista. O quarto do meu filho, como todos, aliás, dá para o jardim. Da cama conseguimos ver o relvado verdinho e o azul da piscina. Dou por mim a pensar em como foi tortuoso o caminho até chegar aqui, mas como sabe bem esta sensação de dever cumprido.

 

Obviamente, seríamos igualmente felizes num apartamento, ou numa casa mais modesta. Nunca tive a mania das grandezas, nem coisa que o valha. Mas para entender a importância que isto tem para mim, precisamos de recuar até à minha infância.

 

Os meus pais foram-no demasiado cedo. Um acidente de percurso que atirou dois adolescentes para um casamento forçado e uma vida remediada. Não tivemos luxos, mas nunca me faltou amor. Sei que o dinheiro não traz felicidade porque fui uma criança feliz, apesar de às vezes não haver dinheiro para comprar pão. Não pensem que alguma vez me faltou o que quer que fosse, longe disso. Mas fui desde cedo uma criança perspicaz, e sempre tive consciência de que vivíamos "à rasca".

 

Admiro, do fundo do meu coração, o esforço e ginástica que os meus pais fizeram para nos dar uma infância memorável. Nunca saímos do país no verão, mas íamos passar dias à praia aqui ao lado. O meu pai fazia as melhores construções na areia, e todas as crianças das redondezas vinham brincar connosco. Nunca tive festas de aniversário dignas de pinterest, mas a minha mãe fazia-me os bolos mais originais e nunca esquecerei o ano em que o meu pai encheu dezenas de balões até que o chão do sótão ficasse completamente coberto, ou das luzinhas de natal que ele espalhou pelas paredes e que criaram o cenário mais mágico de sempre. Não tinha um brinquedo caro no natal, mas tinha vários da loja dos trezentos, e delirava com cada um deles. Mesmo após o divórcio dos meus pais, durante a minha adolescência, nunca deixaram que o falhanço no casamento impactasse o nosso bem estar.

No entanto, desde que me lembro que me preocupo com dinheiro. Recordo-me de ser criança, e no café me perguntarem se queria um bolo e dizer que não, por não querer que gastassem dinheiro comigo. Ou de escolher o gelado mais barato em vez do que realmente queria. Ou de não contar aos meus pais que a mochila estava rasgada, para não terem que comprar outra.

 

 

Tracei, desde cedo, um plano para a minha vida. Havia de me formar. De arranjar um bom emprego. De estabilizar as minhas finanças. E depois teria filhos. Planeei recriar com eles tudo de bom que os meus pais fizeram comigo, com um pequeno twist: estabilidade financeira. Não quero que os meus filhos tenham preocupações, quero que sejam apenas crianças, felizes e seguras. Quero corrigir neles a única coisa que falhou na minha infância. Certamente cometerei outros erros.

 

 

As coisas demoraram mais do que eu previa. Gostava de ter sido mãe aos 25, mas a vida não mo permitiu. Olhando para trás, sinto-me grata por ter tido o discernimento para não dar esse passo. Não era sequer emocionalmente estável o suficiente para ser mãe. Atrasamos a decisão de ter filhos por nós, pelo nosso emprego, pela casa - um sonho que nunca pensei ver sair do papel e que de repente se realizou. Houve alturas em que me arrependi dessa decisão, mas neste momento sinto que as coisas aconteceram quando tinham que acontecer. Olho lá para fora e penso como seremos ainda mais felizes na próxima primavera quando estender uma manta na relva e nos sentarmos os três a brincar. Nas memórias que criaremos quando no verão estivermos os três na piscina, ao fim de um dia de trabalho. Em como vão ser espectaculares as festinhas de anos no jardim, crianças a correr por todo o lado, quem sabe não alugaremos um insuflável. Penso neste natal que se aproxima e em como ele já adora luzinhas e tenho a certeza que vai delirar com a árvore de natal gigante que colocaremos na sala. Nos domingos em frente à lareira. No quentinho da nossa casa, de onde podemos ver a chuva a cair lá fora.

 

Demorou, mas sinto que cheguei onde queria. E isso é maravilhoso.

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6 comentários

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De Sandrine S. a 03.11.2017 às 10:32

PARABÉNS!
que bom ver que há pessoas que lutam e concretizam! 
Haja alegria para si e para os seus Mia, um beijo e continue na luta :)(eu assim penso para mim tb: continuar na luta que a vida há-de sorrir mais e mais!) SS.
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De Mia a 07.11.2017 às 19:15

Obrigada Sandrine! Beijinho
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De VeraPinto a 03.11.2017 às 12:15

Não sei se é da gripe, se deste tempo, mas acabei a chorar no fim. 
Que lindo Mia, que lindo :)
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De Mia a 07.11.2017 às 19:13

Oh :') beijinho
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De Happy a 03.11.2017 às 12:16

Parabéns. Os sonhos são para realizar!
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De Mia a 07.11.2017 às 19:13

:) obrigada!

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