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Não acho. Mesmo. Nem por sombras.

 

Mentiria se dissesse que nunca tive dúvidas quanto a isso. Houve um momento em que questionei a competência dele enquanto pai.

 

 

{O monstrinho tinha poucas semanas de vida e estava a fazer uma pequena birra e constantemente a cuspir a chupeta para o chão, e ele repreendeu-o, zangado. E eu mais zangada fiquei. Concedo que o pai estivesse cansado, exausto, impaciente, mas não se repreende um recém nascido que não tem qualquer controle sobre as suas acções. Aquilo perturbou-me de tal forma que ficou a marinar na minha cabeça durante dias, até que acabei por me sentar com ele e por as coisas em pratos limpos: assim não. Não tolero que descarreguem frustrações no meu filho, muito menos o pai dele. É suposto sermos o seu porto de abrigo, e farei todos os esforços para que isso aconteça, nem que isso implique abrir mão da minha relação - dose extra de drama para provar um ponto. Ele reconheceu o erro, pediu desculpa, prometeu não repetir, e desde então tem sido exemplar.}

 

 

Mas eu queixo-me, claro.

 

Queixo-me de ele se apoiar demasiado em mim, de contar comigo para tudo. Sei que ele não conseguiria responder a perguntas básicas como "qual é o nome da vitamina que ele toma?" ou "quando foi a ultima vez que trocamos os lençóis do berço?" ou ainda "onde estão os gorros?". Sei que isso se deve ao facto de não ser preciso ele saber essas coisas, porque a vitamina é dada de manhã e eu assumi a responsabilidade de a dar para evitar sobredosagem, porque os lençóis são trocados à quarta-feira de manhã, e porque toda a organização do quarto dele é minha responsabilidade - para além de ter mais tempo, faço gosto nisso.

 

Sei que há um motivo lógico para eu saber essas coisas e ele não. Sei que ele não precisa de as saber, porque estou cá eu. Mas assusta-me pensar: e se eu falhar?

 

Ele contrapõe: se tu falhares eu arranjo-me. Sei o essencial, e o resto aprenderia se fosse necessário.

 

Tem lógica, mas às vezes ainda me incomoda, e queixo-me, claro, não sei se já disse. Sou pessoa de se queixar muito de barriga cheia.

 

Nunca tinha pensado no impacto que as minhas palavras teriam nele.

O meu homem é uma pessoa muito pouco dada a queixas e dramatismos. E isso faz com que, por vezes, seja muito fácil esquecer que ali dentro daquela carapaça também há um coração. Nunca me passou pela ideia que ele assumisse as minhas queixas como um atestado de incompetência. E partiu-me o coração que ele pudesse pensar que era um mau pai, por minha causa.

 

Basta ver a reacção que o monstrinho tem quando ele chega a casa todos os dias, para perceber que há ali uma paixão assolapada pelo pai. Derreto-me a ver a forma como ele brinca com o filho, como lhe inventa canções, como faz aviãozinho. Como, sendo ele uma pessoa pouco dada a demonstrações de afecto, lhe mostra diariamente que o adora. Aquece-me a alma ver o cuidado com que o embala, o veste e lhe troca a fralda - mesmo que demore três vezes mais tempo do que eu.

 

O meu homem é o melhor pai que o meu filho poderia ter. E entristece-me a ideia de ele poder pensar de outra forma.

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publicado às 07:37



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