Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O parto - parte III

por Mia, em 06.09.17

(primeira parte aqui, segunda parte aqui)

 

Chegados ao recobro, volta a analgesista e diz-me: pronto, agora vamos então por o cateter da epidural. Toda eu era confusão, e por momentos duvidei da minha sanidade mental. Explicaram-me então que antes do parto não tinham conseguido dar a epidural porque tinha "entrado em vaso". Para não atrasar a cirurgia, foi-me dada uma raquianestesia. Adorava explicar-vos mais sobre este assunto mas poderia estar a dizer grandes asneiras. Correu tudo bem, apesar de nunca ter perdido a sensibilidade nas pernas não senti qualquer dor, e chegamos então ao ponto, após o parto, em que me foi colocado o cateter epidural - não sem antes me terem dado uma qualquer droga que me fez sentir bêbada, e furado mais duas vezes as costas. Nos dois dias que se seguiram, foi por aí que me injectaram a medicação abençoada que me fez sentir novamente uma pessoa.

 

 

Então e o bebé?

 

 

Estava com o pai, naquele que foi o seu primeiro colinho. Quando eu estava, finalmente, devidamente drogada e estabilizada, a parteira veio pô-lo à mama. Falarei mais sobre amamentação depois, mas para já, conto-vos que não foi mágico, não foi espectacular, nem sequer foi doloroso - isso viria a ser depois - foi só estranho. Mamou um pouco, e adormeceu, acho. Nesta altura em que escrevo as memórias já começam a ficar ligeiramente confusas. Ficamos ali, os três, inebriados pelo momento. Acho que foi a última vez que me senti incondicionalmente feliz, sem medos.

 

 

Penso que passaram horas, mas não sei quantas. Acho que estávamos no inicio da tarde quando me disseram que iria para o quarto, mas nem sei. A pediatra comentou comigo que tinha imensa gente à minha espera no quarto. Achei que ela estaria a exagerar e perguntei quanto era imensa gente, ao que ela me respondeu: umas sete pessoas. E estavam. Sete pessoas à minha espera, depois do parto.

 

Quando pesamos os prós e os contras de um parto no público vs. privado, esta questão das visitas foi imediatamente para a coluna dos contras. No privado não há limite de visitas, quase tudo é permitido, e isso nunca foi visto com bons olhos por nós. Nem sonhávamos o impacto que este factor teria no pós parto. É claro que apreciamos o carinho de todos. E no início nem nos apercebíamos do quão cansados estavamos, até começar a pesar.

 

 

Ao longo dos 4 dias em que estive internada, nunca estivemos sozinhos durante o dia. As visitas vinham e ficavam, nem que estivessem já 5 pessoas no quarto. À boa maneira portuguesa: cabe sempre mais um, e iam ficando, às vezes por horas. Entretanto todos queriam pegar no bebé, falava-se alto, deixava-se aberta a porta que fazia corrente de ar. Entre sacos e embrulhos, flores, balões, duas camas, um berço, um cadeirão, e todas as visitas, aquele quarto começou a sufocar-me. Na segunda noite, fritei.

 

 

Comecei a ter dores, e a medicação de 4 em 4 horas já não estava a ajudar o tempo todo. O enfermeiro de serviço demorou, porque havia uma outra mãe a precisar de assistência. Não tinha a certeza de que estivesse a fazer um bom trabalho com a amamentação: tinha os mamilos em sangue e o miúdo não urinava desde a noite anterior. Não tinha pregado olho o dia todo, e o cansaço começava a abater-se sobre mim. Entrei em desespero.

 

 

Quando o enfermeiro chegou, eu chorava que nem um bebé.

Sentou-se comigo e falamos. Pediu que lhe explicasse o que me atormentava. E uma por uma, fomos desmontando todas as minhas dúvidas e incertezas. A sensação de medo e desespero ainda está tão presente que me custa sequer pensar nessa noite. No dia seguinte, vi-me forçada a pedir ajuda para limitar as visitas. Tirei o som ao telemóvel, deixei de responder a mensagens, pedi que não viessem ao hospital. Ainda assim nem toda a gente respeitou, e continuamos a ter visitas non-stop até ao ultimo minuto que lá passamos. Literalmente - houve um grupo de familiares que insistiu para nos vir ver ao hospital na tarde em que iríamos para casa. Mesmo eu tendo pedido para não virem, fui ignorada e lá apareceram.

 

 

Quando, no primeiro dia, me disseram que teria que ficar quatro dias internada, não fiquei agradada com a ideia. Queria ir para casa e começar a nossa vida a três o mais rapidamente possível. Mas confesso que, à medida que o tempo foi passando, comecei a stressar com a ideia de deixar o hospital. É tão fácil estar internada: temos uma campainha na cama e enfermeiros especializados à distância de um toque. Qualquer dúvida é prontamente esclarecida, e a rede de segurança está sempre ali. Mas em casa não.

 

Gostava de dizer que sou uma pessoa corajosa e sem medo de nada, mas a verdade é que ao segundo dia, a ideia de deixar o hospital aterrorizava-me, e mentiria se dissesse que não me passou pela cabeça a hipótese de pedir mais uns dias de internamento. Mas fomos para casa. E não foi fácil. Tem melhorado, mas não foi o mar de rosas que eu esperava. Se calhar se tivesse tido a criança num hospital pior, com menos condições ou com um mau atendimento a coisa teria sido diferente. Mas não tive, não tenho razão de queixa do hospital, acho que correu tudo muito bem, mesmo as coisas que poderiam ter corrido mal. E a partir daqui é connosco, desejem-nos boa sorte!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:32


12 comentários

Imagem de perfil

De Nuvem a 06.09.2017 às 11:23

vai correr super bem! tenho a certeza que és uma super mãe!
Imagem de perfil

De Mia a 06.09.2017 às 11:34

Oh :) obrigada!
Imagem de perfil

De nervosomiudinho.blogs.sapo.pt a 06.09.2017 às 13:00

Senti exactamente o mesmo. Era um conforto a campainha e os profissionais a uns segundos.
Imagem de perfil

De Mia a 12.09.2017 às 11:02

Na primeira noite chamei tantas vezes a enfermeira que até tive vergonha. Ela foi impecável, nunca reclamou, nunca desvalorizou as minhas dúvidas. Este cuidado, esta atenção e a sensação de protecção que me transmitiram foi sem dúvida a melhor surpresa do parto e dias seguintes.
Imagem de perfil

De m-M a 06.09.2017 às 13:53

Mais do que boa sorte: todo o Amor do mundo! ***
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 07.09.2017 às 10:48

Boa sorte! como me encontrei nas suas palavras! inacreditável. A emoção de recordar veio ao de cima por a ler. A sensação de estar no hospital foi semelhante á sua, tanto que no dia de saída para casa, meu marido chegou, arrumada as malinhas, bébé no ovo, lembro de passar pelo corredor avistar as auxiliares e enfermeiras na sala delas, eu parei para me despedir, sigo para a porta da ala, e lembro de pensar: "mas é assim? eles deixam sair um bébé com os pais assim, sem terem certeza de nada??" um riso hoje quando me lembro.
Vou acompanhando seus textos/desabafos, fique com a certeza que não está sozinha, e chorar (muito) e duvidar (de tudo) é aceitável... mãe!
Imagem de perfil

De Mia a 12.09.2017 às 10:59

Que bom! Gosto tanto de sentir que não estou sozinha e que mais alguém passou pelo mesmo que eu. Fiquei mesmo contente com o seu comentário. Beijinho
Imagem de perfil

De Chic'Ana a 07.09.2017 às 14:44

Gostei muito de ler o teu testemunho e se houve algo que já aprendi foi que não vou começar logo a avisar toda a gente que a bebé nasceu.. só no dia seguinte e com calma, e posso acidentalmente enganar-me no nome do hospital.. acho que os avós e tios devem ser avisados, sim, são um apoio sempre presente e constante, mas mais que isso.. em casa teremos muito tempo para os receber..
Imagem de perfil

De Mia a 12.09.2017 às 10:58

Fazes muito bem, mas prepara-te: as notícias voam! Eu também só tinha avisado a minha mãe e olha o que aconteceu
Se conseguires, pela tua sanidade mental, limita mesmo as visitas!
Imagem de perfil

De VeraPinto a 11.09.2017 às 21:20

Derreto-me toda com os teus posts :) tenho andado numa parveira imensa de trabalho, longe de casa, mas não vou dormir sem te ler :)


E finalmente, as visitas. Eu ainda não penso ser mãe, mas já ando a avisar as pessoas.. visitas no hospital? SÓ os meus pais e os dele e os irmãos. Mais nada! 
Já ouvi histórias terríveis e a tua confirma-se.. 
Imagem de perfil

De Mia a 12.09.2017 às 10:56

Oh :)
Ainda nem falei muito sobre isso das visitas e da falta de noção das pessoas. Ando aqui com problemas em traçar a linha sobre o que é demasiada informação para o blog, ainda que me apeteça (tanto) falar sobre isso!

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Oh, não gostaste do que escrevi?




Quem vem lá

Site Meter