Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ou, como carinhosamente lhe chamo, o tormento.

 

 

Tudo o que o primeiro trimestre teve de mau, voltou na sua versão revista e melhorada. Azia a toda a hora e momento, cansaço, sono, dores no peito, até enjoos por vezes.

 

 

A barriga começou a pesar, e apesar de só se ter tornado mesmo grande no último mês, revelou-se extremamente desconfortável. Até as movimentações mais simples como apertar os sapatos ou tirar as calças exigiam uma certa perícia e eram suficientes para me deixar corada como se tivesse corrido a maratona. Levantar-me estando deitada também começou a ser um espectáculo giro de se ver.

 

Comecei a ter saudades do meu corpo me pertencer e não ser apenas uma incubadora. Saudades de coisas como conseguir caminhar pelo centro da cidade sem ter medo que me desse o badagaio por abusar. É estranho quando, de um momento para o outro, deixamos de conhecer os limites do nosso corpo, e coisas que dantes eram normais se tornam difíceis. Suponho que, quando começamos a ficar velhinhos, seja qualquer coisa do género. De repente, dei por mim cheia de estrias e odiei olhar-me ao espelho.

 

 

E falando em deitar, então e as noites? Um inferno. Acordar 4/5 vezes para ir à casa de banho não chegava, era preciso começar a falta de ar e vir também o calor ajudar à festa. "Estou tão desconfortável" é capaz de ser a frase que mais disse na recta final da gravidez. E estava. Não pelo bebé, que foi sempre uma paz de alma e dormia quando eu dormia. Muito raras foram as vezes em que me acordou com algum movimento, creio que era mais o contrário, o facto de eu andar às voltas é que lhe interrompia o sono. Mas a barriga pesava, era incómoda, estava calor e eu não conseguia respirar. Aliado a isto, as minhas mãos resolveram mostrar o quanto me odiavam. E acho que este foi o pior sintoma que tive em toda a gravidez. Dores tão intensas que me despertavam. Cheguei a dormir com as mãos ligadas, mas não conseguia aguentar a noite toda por causa do calor. Uma das vezes adormeci com a mão direita fechada, e de manhã não a conseguia abrir. Parecia que tinha paralisado ali, tive que puxar os dedos, um a um, com a mão esquerda, e aguentar as dores horríveis. Achava eu que isto era tudo, que sofria das mãos mas os pés estavam bem, até que um belo dia dei por mim sem tornozelos. Em vez de pés tinha patorras, e foi assustador ver-me neste estado. Em compensação, voltar a ter pés pequeninos depois do parto foi uma experiência espectacular!

 

 

Trabalhar começou a ser incómodo. Os mais de 120km de carro todos os dias, aliados às 8h quase seguidas sentada na mesma posição, começaram a dar sinal, principalmente depois de o bebé dar a volta. A pressão pélvica tornou-se intensa e as contracções começaram a ser diárias, antes das 30 semanas, um valente susto e um sinal de que estava na altura de parar. E assim fiz. No final de Maio vim para casa com baixa por gravidez de risco, e passei as primeiras semanas em serviços mínimos, a tentar que as coisas acalmassem um pouco. Às 33 semanas tive o OK para recomeçar, devagarinho, a ser uma pessoa. Nada de grandes esforços, claro, mas fui autorizada a fazer coisas básicas como ir até ao shopping (desde que não carregasse pesos) ou tomar um café fora de casa de vez em quando.

 

 

Aliado a isto tudo, os nervos começaram a atacar fortemente. Primeiro medo de um parto prematuro: será que o bebé sobrevive? Ai meu Deus que ainda nem terminei a mala. E a casa que não está pronta. E eu, eu não estou preparada para ter esta criança agora, ainda nem decidi em que hospital o vou ter, ainda nem comecei as aulas de preparação para o parto... Um drama, vocês sabem. Quando as coisas acalmaram, o medo acalmou também um pouco. Mas só mesmo um pouco. Nunca me assustou a dor de parir, mas sim o medo de não ser capaz de o fazer, de não aguentar. E gerir os nervos, enquanto se passa os dias sozinha em casa sem nada para fazer, não é tarefa fácil.

 

 

Para além disto, fui acometida de uma tristeza súbita. Não sei explicar, mas de repente aquela alegria inconsciente do segundo trimestre já não estava lá. Tive dias em que me senti miserável, outros em que chorei sem saber bem porquê. Culpo as hormonas. Lembro-me, a meio de Junho, de começar a sentir uma nostalgia imensa da minha barriga de grávida, mesmo que ainda a tivesse, mesmo que 5 minutos antes estivesse a queixar-me dela. O cérebro de uma grávida é uma montanha de cocó, às vezes.

 

 

E falando em cérebro de grávida: nunca mais na minha vida hão de me ouvir a gozar com esse fenómeno que dá pelo nome de pregnancy brain. Ele é real. De repente esquecia-me de coisas, quer fosse aquela frase que comecei e já não me lembrava do final, ou aquela consulta no dentista. O mais absurdo foi quando troquei os cartões de débito e deitei fora o novo, guardando o velho que já não funcionava. Contado ninguém acredita, mas aconteceu.

 

Os últimos dias foram verdadeiramente desgastantes. Estava cansada, gigante, inchada e com dores variadas. Ainda assim, longe de saber as saudades que teria de estar grávida.

 

O twist irónico desta gravidez: depois de tanta ameaça de parto prematuro, o puto chegou quase ao fim e não estava com vontade de sair. Por ser uma criança tão grande, acabamos por agendar a cesariana para as 39 semanas e 1 dia. Fez-me alguma confusão, mas no final, acabou por se revelar a melhor opção.

 

Em resumo, com todos os contras, nervos, dramas, e preocupações variadas, adorei estar grávida. E sei, com toda a certeza, que quero repetir e que me sentirei incompleta se não o puder fazer. Daqui a uns anos, entenda-se!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:32



Mais sobre mim

foto do autor


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Oh, não gostaste do que escrevi?




Quem vem lá

Site Meter