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Com mais de seis meses e meio de gravidez, nunca me foi oferecida prioridade em qualquer estabelecimento. E não, não  estou a exagerar. Quando digo nunca, quero dizer nem uma única vez.

 


De uma forma geral, sinto que não preciso da prioridade, é verdade, e por isso apenas uma vez a pedi. Normalmente não me sinto pesada, não ando "à pato", não sinto que esteja menos capaz de aguentar uma fila do que as outras pessoas, e por isso tento não me chatear com isto, o que não quer dizer que seja bem sucedida. A prioridade de uma grávida é um direito, e não deveríamos ter que implorar por ele.

 


Não vou falar daquele dia em que, com dois meses de gravidez, estava enjoadíssima e com tonturas e ninguém me deu a vez na fila nem eu tive coragem de pedir porque "não se vê que estou grávida" e não queria ser maltratada, ou daquela outra vez, mais ou menos pela mesma altura, em que me pediram que cedesse lugar na fila do supermercado porque a senhora atrás de mim trazia uma criança que tinha seguramente uns 3 anos e dormia tranquilamente no carrinho, e eu cedi também, pelo mesmo motivo. Ignoremos o facto de ser completamente impossível obter atendimento prioritário nos primeiros meses da gravidez, mesmo sendo por vezes a altura em que estamos pior.

 


Queixo-me do agora.

 


Queixo-me daquele dia em que esperei, seguramente, meia hora na Caixa Geral de Depósitos, enquanto o funcionário atendeu lentamente toda a gente que estava à minha frente e mais uns quantos amigos/conhecidos que chegaram depois de mim, mesmo tendo olhado para a minha barriga, mesmo estando eu com uma mão na barriga e outra nas costas, que me doíam.

Queixo-me de todas as viagens que fiz no metro de Lisboa ao longo de uma semana, em que ninguém me cedeu lugar, apesar de várias pessoas terem olhado. Mais ainda, queixo-me daquela mãe que incentivou, à entrada do metro cheio, a filha a empurrar-me para passar (não estou a gozar, ela disse mesmo "empurra!"), e que ainda me olhou com cara de poucos amigos quando pus o braço de forma a proteger a barriga e lhe disse, furiosa, CUIDADO. No limite do ridículo, queixo-me daquele anormal que, nos 2 segundos que levei a virar-me e posicionar o rabo para me sentar na cadeira, se sentou no meu lugar (!!!!!) - aí não me contive e mandei-o sair. E se não tivesse saído, juro que me sentava no colo dele.

Queixo-me de todos os fins de semana fazer compras no Continente e nunca, uma única vez, me terem chamado para a frente da fila, fosse esta pequena ou gigante.

Queixo-me daquele dia em que fui ao hospital e, numa sala cheia de grávidas e acompanhantes, com todos os lugares ocupados, nenhum acompanhante fez menção de se levantar para me dar o lugar. Pior, queixo-me de, nesse dia, ter tido que pedir a uma das grávidas que fizesse o favor de desocupar a cadeira onde tinha a mala dela, para que eu me pudesse sentar, porque se estivesse à espera que ela tomasse a iniciativa bem que ficava em pé.


Queixo-me de, no mesmo hospital, quase me terem deixado de fora de um elevador com indicação expressa de prioridade, mesmo que a maioria das pessoas que lá entrou fosse apenas subir um andar (eu ia subir 5) e pudesse perfeitamente ir pelas escadas.

 


Queixo-me destas situações, e poderia ficar aqui o dia todo a contar-vos outras semelhantes que acontecem todos os dias. O atendimento prioritário é obrigatório mas não devia ser, deveria ser senso comum. E o mais triste é que, sendo obrigatório, não é respeitado.

 


Mas se não precisas de prioridade, porque te queixas?

 


Porque tenho direito a ela. Não me interpretem mal, se estiver numa fila e me sentir bem, mesmo que me sugiram passar à frente não irei aceitar. Gravidez não é doença, dizem os antigos, e não tenho qualquer intenção de usufruir desse direito se não necessitar. Mas é obrigação, pelo menos, de quem está a atender ao público, questionar.

 

Uma grávida que está cansada, com dores, indisposta, ou simplesmente mais sensível, não devia precisar de mendigar por atendimento prioritário. Não devia precisar de passar à frente de uma fila que por vezes parece infinita enquanto pede licença e leva com olhares de ódio e comentários foleiros, para chegar ao início e pedir se por favor pode usufruir do seu direito. Não devia ter medo de pedir à pessoa da frente que lhe cedesse o lugar - quantas vezes fiquei calada porque tinha quase a certeza de que se pedisse ia dar confusão e me arriscava até a levar uns sopapos? - deviam ser as pessoas responsáveis pelo atendimento a garantir que isso acontece.

Não está bem, e é de uma falta de respeito atroz. Nunca, em toda a minha vida, me senti menos respeitada do que desde que estou grávida. E acho que isso diz muito sobre a nossa sociedade.

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10 comentários

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De Chic'Ana a 10.05.2017 às 10:31

Partilho da mesma opinião, tal e qual... estou quase de 5 meses e sim, entre o segundo e o terceiro mês era quando mais precisava de me sentar, pelas pontadas constantes, pelos enjoos e pelas tonturas.. Nunca me cederam lugar, e lá está, nunca o pedi porque não se notava. AGora que se nota, o tratamento é exatamente o mesmo. Queres lugar? Luta por ele!
Beijinhos
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De Mia a 10.05.2017 às 13:56

OMG eu devo viver dentro de uma caverna, não sabia que estavas grávida! Parabéns!!! :D beijinho
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De Chic'Ana a 10.05.2017 às 13:59

Ahahah, obrigada!! 
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De Simple Girl a 10.05.2017 às 11:30

Uma senhora que trabalha no serviço público (finanças acho) explicou-me uma vez que no atendimento prioritário, sejam grávidas, pessoas com deficiência motora, etc, tem que ser a própria pessoa a ir informar ao balcão (se for num banco, finanças, segurança social, etc) que quer usufruir do seu direito a atendimento prioritário. Não tem lógica nenhuma, na minha opinião, mas ela disse-me que a maioria dos locais o atendimento prioritário é assim: a pessoa é que tem que dizer que necessita de atendimento prioritário.
Também acho muito estúpido pessoas novas não darem lugar a pessoas grávidas, idosas ou que se vê que são mais "frágeis". A minha mãe por exemplo, não é idosa mas a sua forma de andar e o seu ar cansado dá para ver que é alguém frágil e que num autocarro não pode ir de pé porque facilmente se desequilibra, e uma vez no autocarro nem um miúdo se deu ao trabalho de tirar a mochila do banco ao seu lado para a minha mãe se sentar. Ela é boazinha demais e nem queria pedir mas eu lá disse a uma rapariga para tirar a mochila porque há pessoas que se querem sentar e as mochilas não têm que ocupar lugar quando há poucos lugares vagos.
Enfim, é a educação e o civismo dos portugueses... Desculpa o comentário demasiado longo, mas a falta de civismo é um assunto que me irrita um pouco.
Beijinho*
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De Mia a 10.05.2017 às 13:56

Concordo: não tem lógica! Quem está a atender é que deve impor ordem, e os grupos prioritários são-nos por estarem, de alguma forma, mais debilitados. Não é justo que uma pessoa num momento mais frágil tenha que enfrentar uma fila enraivecida.
O mais triste é que isto poderia facilmente ser evitado se as pessoas tivessem o mínimo de civismo.
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De Simple Girl a 10.05.2017 às 15:06

Exactamente! É a lógica no atendimento cá em Portugal...
O problema é mesmo esse, não há mínimo de civismo, com excepção de algumas pessoas, e parece que só olham para o seu próprio umbigo.
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De m-M a 10.05.2017 às 14:50

Tiras-me as palavras "da boca", sendo que no meu caso sou deficiente motora...

Como diria um bombeiro, há 5 anos, quando tive um acidente: sabe qual é o seu problema? É que não se nota nada na cara...

Beijinho,
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De Mia a 11.05.2017 às 13:55

Pois! Esse é o "problema", se não se nota ou não te queixas, estás bem... **
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De m-M a 11.05.2017 às 17:41

Então não estás?! :P
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De Mia a 12.05.2017 às 18:06

Logico que sim! :D

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