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Há um ano celebramos entusiasticamente o dia da mãe. Estava grávida de dois meses, feliz como nunca tinha estado em toda a minha vida, e festejamos, só os dois, sem ninguém saber.

Ele escreveu-me um postal e comprou-me uma prenda, eu estava no céu, imensamente feliz - não sei se já disse. Mais tarde nesse dia oferecemos a cada uma das nossas mães isto, e assim contamos a novidade. Foi um dia bom, achei na altura, mas hoje não consigo olhar para trás e sentir o mesmo.


Foi um dia horrível, se pensar bem nisso.

 

O meu bebé, que celebrei nesse dia, já estava morto há 3 dias e eu nem tinha ideia. Na verdade só o soube passados ainda mais seis dias. Seis dias depois foi o pior dia da minha vida.


Odeio por isso o dia da mãe. Este ano todos à minha volta sabem que estou grávida, e mencionam carinhosamente que este é o meu primeiro dia da mãe, mas não é. Não quero comemorar, tenho medo desta data, por mim fazíamos de conta que não existia e voltávamos a falar para o ano. Pode ser?

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Tenho. Nem vos consigo descrever quanto.

 

 

Uma amiga que teve um aborto espontâneo contou-me que, a coisa de que mais se arrepende na gravidez seguinte foi não ter aproveitado o momento. Que estava tão paralisada de medo que se recusava a falar sobre o assunto, a tirar fotografias, a contar que estava grávida, a fazer planos.

Isto ficou-me na cabeça.

 

 

Todos os dias tenho medo que as coisas corram mal, todos, sem excepção.

 

Quando expus a gravidez no blog, tive medo.

Quando anunciei no facebook, perante amigos, colegas e conhecidos, que estava grávida, tive medo.

Sempre que vejo alguém entusiasmar-se com o bebé, morro de medo.

Mas vai correr tudo bem. TEM que correr tudo bem, não é?

 

 

Não quero ser eu a dizer, daqui a uns meses, que não aproveitei o suficiente, que vivi retraída com medo.

 

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É assim que me sinto.

Desde que perdi o bebé, muito pouco me interessa. Não me importa se é dia de trabalho ou fim de semana, se chove ou está sol, se fico em casa ou tenho algum programa mais interessante para fazer. Não quero saber, tudo me enerva, tudo me entedia.

Sei, se usar a cabeça, que não me posso deixar dominar por estes sentimentos. Que não me trazem nada de bom. Que não posso chorar sobre o leite derramado. Sei de cor todas as frases motivacionais, oiço todos os conselhos de algibeira que as pessoas vão partilhando comigo mesmo que eu não peça. Sei que a vida é mais que isto, que não é o fim do mundo, que podia estar muito pior. Que não morri, e não posso agir como se mais nada me importasse. E ainda assim, a razão perde para a emoção e eu sou só uma casca, sem alma, que aqui anda.

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O aborto, esse bicho papão

por Mia, em 15.06.16

Sei que este assunto já enjoa aqui pelo blog.
Nunca gostei muito das pessoas que se definem por aquilo que lhes acontece: eu tive um aborto mas sou mais do que a pessoa que perdeu um bebé. Eu continuo a ser a Mia, o aborto foi algo que me aconteceu e que, inevitavelmente, marcou a minha vida, mas eu sou mais do que uma má experiência. Feita esta pequena introdução, sinto a necessidade de, por mais um bocadinho, continuar a falar sobre o assunto. Prometo que não me demoro.

Desde o início da gravidez (ou até antes), somos formatadas para ter cautela. Não falar muito do assunto. Não contar a ninguém. Toda a grávida tem aquela meta das 12 semanas, altura em que já passou o pior, já "podemos" começar a contar (baixinho!) às pessoas mais próximas, já podemos respirar de alívio... mas será mesmo assim? Quantas mães acham, realmente, que vai acontecer alguma coisa má nessas primeiras 12 semanas? Toda a gente sabe que essas coisas só acontecem aos outros. Quantos casos de aborto conhecemos, na realidade? Há aquela amiga, aquela colega, a cunhada da prima... e pouco mais. Então, se pela nossa vida passam tantas grávidas, e apenas dois ou três casos de perda, não há de ser uma coisa normal, não há de nos acontecer a nós.


E depois acontece.


Não vou discorrer aqui sobre toda a misturada de sentimentos que uma mulher vive numa altura como esta, até porque não sei de todas as mulheres, sei de mim. Hoje vou falar de um pensamento específico, que me atormentou durante semanas: há qualquer coisa de errado comigo.

 

Despistadas todas as teorias sobre "onde é que eu errei" - em lado nenhum, era uma anomalia congénita, diz a vozinha sensata na minha cabeça - começam a soar os alarmes. Porque isto não é normal. Porque não acontece a mais ninguém. Porque para acontecer uma coisa destas, é porque algo está muito errado. Pode estar, claro que sim, não vou estar aqui com falinhas mansas.
O facto de sermos socialmente formatados para esconder um aborto, a meu ver, transforma-o num bicho estranho e assustador, cria uma aura de medo e pânico em torno de algo que, infelizmente, é normal.

 

Lia, há semanas, o testemunho de um pai que passou por uma situação semelhante, em que ele dizia qualquer coisa do género: quando perdes um familiar, um amigo, um cão, toda a gente sabe, as pessoas compadecem-se da tua situação, dão-te apoio e carinho. Quando perdes um bebé ninguém sabe, afinal, vais chorar publicamente a morte de uma pessoa que ainda não existia?
Este tabu, esta necessidade de esconder a situação, faz com que, aos olhos do mundo, ela nunca tivesse acontecido. Então, quando acontece connosco, sentimo-nos uma ave rara e, logicamente, algo só pode estar muito errado, porque "não é normal".


Esta ideia consumia-me. Andei semanas a martelar mentalmente no mesmo assunto: os médicos dizem que é comum, que acontece, que não é assim tão estranho... mas então porque é que não se ouve falar disso? Não sei se se nota, pelo que escrevo, que posso por vezes deixar-me absorver em demasia pelos meus pensamentos. E este andava em loop na minha cabeça. Um dia, resolvi fazer uma lista de pessoas que conhecia que tinham passado por um aborto. Contei 11. Onze pessoas das minhas relações já passaram pelo mesmo que eu, e dessas onze apenas duas não são, ainda, mães.

 

Se calhar não sou assim tão anormal.

Se calhar não é o fim do mundo.

Se calhar as coisas ainda podem correr bem.

 

Mas então, se é uma coisa assim tão comum, porque é que não se ouvem relatos daquelas pessoas famosas que nos entram pelos olhos todos os dias? Uma pesquisa de dois minutos deu-me uma lista de 50 celebridades que já tiveram um ou mais abortos. CINQUENTA!!

Assim de repente, contei 61 pessoas que já passaram por isto, e, de alguma forma isso trouxe-me conforto. Não me interpretem mal, não me consola saber que o mal que eu vivo já aconteceu a alguém, mas antes comprovar que, efectivamente, o aborto... acontece!

O aborto é uma coisa comum. Não acontece só aos outros. Sei que para algumas mulheres falar é bom, enquanto que outras se sentem melhor resguardando-se e guardando para si e para os seus. Mas noto que a sociedade nos condiciona a mostrar apenas o lado bonito da gravidez, e a esconder os "podres". E talvez, só talvez, falar mais sobre o assunto pudesse ser uma mudança positiva.

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*suspiro*

por Mia, em 14.06.16

... quando aquela ultima pessoa que sabia do bebé, mas a quem não te passou pela cabeça contar que o perdeste, te pergunta ingenuamente se ainda é segredo ou se já é do conhecimento geral que estás grávida.

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Random shit

por Mia, em 17.05.16

Fui informada de que estava a fazer mal o luto. Que não é assim, não posso andar atarefada, ocupar a cabeça. Que a forma certa é deitar-me no sofá a ver tv e chorar bastante.

 

Decidi ir acender uma vela ao santo. Eu que nem sou dessas merdas, que já não sabia no que acreditava e agora ainda menos sei, arrastei o homem a um santuário e acendemos três velas. Não disse em voz alta, mas fiz uma promessa.

 

Só para animar as hostes, o meu dente desvitalizado ressuscitou das profundezas do inferno e tem-me dado dores horríveis todos os dias.

 

E porque uma desgraça nunca vem só, os bichos cá de casa apanharam pulgas. Como? Ninguém sabe, diz o sôtor que podemos ter trazido nos pés ou coisa que o valha.

 

No domingo quebrei. Achei que foi do acumular de coisas, mas vai na volta sou mesmo incompetente nessa merda do luto.

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Esta necessidade tão grande de organizar a casa, numa tentativa desenfreada de fazer com que a arrumação exterior se sobreponha ao caos interior.

A minha cabeça pode estar em frangalhos, mas, garanto, não há um fósforo fora do lugar nesta casa.

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publicado às 02:54

"Agora tens que resolver este problema e partir para outra"

"Não tarda nada já tens outro"

"Que chatice isso ter ficado aí"

"É pena, mas pronto, bola para a frente"

"Foi só um percalço, ainda és tão novinha!"

"Quanto mais depressa resolveres isso melhor"

 

Mas será tão difícil de entender que "este problema", este "percalço", "isso", foi durante mais de dois meses o meu bebé? Que não foi um rebuçado que me caiu ao chão mas não faz mal porque a seguir compro outro e está o problema resolvido? Que ter estado dias com o meu filho morto na barriga não foi "uma chatice", mas sim a tortura mais excruciante pela qual já passei na minha vida?

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"Agora vais ter que fazer uma dietazinha he he he"

 

E a vontade de começar a mandar gente pró caralho?!

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Mas a frase "vocês ainda são tão novos!" não me traz consolo. Quanto muito enraivece-me, pelo o facto de utilizarem a minha idade para tentar menosprezar a minha dor.

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Tinha acabado de saber, e por isso aquela necessidade histérica de gritar ao mundo. Mas não se pode, diz que dá azar, que devemos ser contidos, que não podemos preocupar os outros com uma coisa que pode ainda correr tão mal, egoísmo nosso. Então escolhi postar no blog, escondida atrás do meu anonimato, porque eu não sou a Mia, a Mia é a pessoa que escreve aqui no blog, e quem me havia de reconhecer, não é? Oh que alegria, poder dizer aquelas palavrinhas "em voz alta".


Assim que publiquei arrependi-me. Ai meu Deus que ainda alguém descobre quem eu sou. Ai que nem sequer contei à minha mãe e espetei com a notícia na net, o que fui eu fazer? Apagar estava fora de questão. Então pensei que o melhor seria esperar mais uns tempos para voltar a falar sobre o assunto. Talvez não até às 12 semanas, uma eternidade, mas até aquela ecografia quase no fim das nove, aí já estaria mais segura.

O tempo foi passando, e eu fui sossegando. Escrevia posts que guardava em rascunhos, para mais tarde partilhar. Estava tudo a correr tão bem, porque haveria de falhar agora tão perto dessa meta que é o primeiro trimestre? Aos pouquinhos, fomos contando às pessoas mais próximas, porque afinal, se corresse mal não iríamos querer o apoio delas?

As nove semanas chegaram, e estava tudo pacífico. Melhor que pacífico aliás, imagine-se que até os enjoos me deram descanso. O peito não me doía tanto. Até já tinha conseguido voltar a dormir uma noite inteira, que maravilha! Havia uma vozinha cá dentro que me dizia que não estava certo, que não era suposto ser assim. Mas ao mesmo tempo muitas vozes cá fora diziam que não, que isso é stress de mãe de primeira viagem... e o que sei eu, na verdade? Nove semanas quase no fim, e a tão esperada ecografia era ontem. E não foi preciso a médica dizer nada para eu perceber o que se passava. O coração não batia, o bebé não mexia. Soube no segundo em que o vi, que tinha acabado ali.

Agora não sei como reagir, oscilo entre a apatia e a depressão, e às vezes passo pela raiva e dou um pulinho ao optimismo e penso que (também) isto vai passar, e que para a próxima correrá melhor.

Uma grande amiga que há uns tempos passou pelo mesmo disse-me, nesse dia: "Não é o fim do mundo. Mas é o fim do meu bebé."
Acho que nunca tinha compreendido verdadeiramente o significado dessas duas frases. Até ontem.

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