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O aborto, esse bicho papão

por Mia, em 15.06.16

Sei que este assunto já enjoa aqui pelo blog.
Nunca gostei muito das pessoas que se definem por aquilo que lhes acontece: eu tive um aborto mas sou mais do que a pessoa que perdeu um bebé. Eu continuo a ser a Mia, o aborto foi algo que me aconteceu e que, inevitavelmente, marcou a minha vida, mas eu sou mais do que uma má experiência. Feita esta pequena introdução, sinto a necessidade de, por mais um bocadinho, continuar a falar sobre o assunto. Prometo que não me demoro.

Desde o início da gravidez (ou até antes), somos formatadas para ter cautela. Não falar muito do assunto. Não contar a ninguém. Toda a grávida tem aquela meta das 12 semanas, altura em que já passou o pior, já "podemos" começar a contar (baixinho!) às pessoas mais próximas, já podemos respirar de alívio... mas será mesmo assim? Quantas mães acham, realmente, que vai acontecer alguma coisa má nessas primeiras 12 semanas? Toda a gente sabe que essas coisas só acontecem aos outros. Quantos casos de aborto conhecemos, na realidade? Há aquela amiga, aquela colega, a cunhada da prima... e pouco mais. Então, se pela nossa vida passam tantas grávidas, e apenas dois ou três casos de perda, não há de ser uma coisa normal, não há de nos acontecer a nós.


E depois acontece.


Não vou discorrer aqui sobre toda a misturada de sentimentos que uma mulher vive numa altura como esta, até porque não sei de todas as mulheres, sei de mim. Hoje vou falar de um pensamento específico, que me atormentou durante semanas: há qualquer coisa de errado comigo.

 

Despistadas todas as teorias sobre "onde é que eu errei" - em lado nenhum, era uma anomalia congénita, diz a vozinha sensata na minha cabeça - começam a soar os alarmes. Porque isto não é normal. Porque não acontece a mais ninguém. Porque para acontecer uma coisa destas, é porque algo está muito errado. Pode estar, claro que sim, não vou estar aqui com falinhas mansas.
O facto de sermos socialmente formatados para esconder um aborto, a meu ver, transforma-o num bicho estranho e assustador, cria uma aura de medo e pânico em torno de algo que, infelizmente, é normal.

 

Lia, há semanas, o testemunho de um pai que passou por uma situação semelhante, em que ele dizia qualquer coisa do género: quando perdes um familiar, um amigo, um cão, toda a gente sabe, as pessoas compadecem-se da tua situação, dão-te apoio e carinho. Quando perdes um bebé ninguém sabe, afinal, vais chorar publicamente a morte de uma pessoa que ainda não existia?
Este tabu, esta necessidade de esconder a situação, faz com que, aos olhos do mundo, ela nunca tivesse acontecido. Então, quando acontece connosco, sentimo-nos uma ave rara e, logicamente, algo só pode estar muito errado, porque "não é normal".


Esta ideia consumia-me. Andei semanas a martelar mentalmente no mesmo assunto: os médicos dizem que é comum, que acontece, que não é assim tão estranho... mas então porque é que não se ouve falar disso? Não sei se se nota, pelo que escrevo, que posso por vezes deixar-me absorver em demasia pelos meus pensamentos. E este andava em loop na minha cabeça. Um dia, resolvi fazer uma lista de pessoas que conhecia que tinham passado por um aborto. Contei 11. Onze pessoas das minhas relações já passaram pelo mesmo que eu, e dessas onze apenas duas não são, ainda, mães.

 

Se calhar não sou assim tão anormal.

Se calhar não é o fim do mundo.

Se calhar as coisas ainda podem correr bem.

 

Mas então, se é uma coisa assim tão comum, porque é que não se ouvem relatos daquelas pessoas famosas que nos entram pelos olhos todos os dias? Uma pesquisa de dois minutos deu-me uma lista de 50 celebridades que já tiveram um ou mais abortos. CINQUENTA!!

Assim de repente, contei 61 pessoas que já passaram por isto, e, de alguma forma isso trouxe-me conforto. Não me interpretem mal, não me consola saber que o mal que eu vivo já aconteceu a alguém, mas antes comprovar que, efectivamente, o aborto... acontece!

O aborto é uma coisa comum. Não acontece só aos outros. Sei que para algumas mulheres falar é bom, enquanto que outras se sentem melhor resguardando-se e guardando para si e para os seus. Mas noto que a sociedade nos condiciona a mostrar apenas o lado bonito da gravidez, e a esconder os "podres". E talvez, só talvez, falar mais sobre o assunto pudesse ser uma mudança positiva.

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Deixar ir

por Mia, em 07.06.16

Se há coisa que acho aprendi nestes meus quase trinta anos foi a deixar ir as pessoas. Não quero mais gente tóxica na minha vida, nem me esforço por manter quem não quer ficar. Uma relação, qualquer que seja, não tem que ser penosa. Não quero pessoas que estão sem estar, pessoas que tenho que tratar "nas palminhas". "Amigos" que se chateiam com pintelhos e nem se dignam a avisar, obrigando uma pessoa a adivinhar o que raio lhes vai na mente. Aprendi que, não raras vezes, o problema é de quem se aborrece assim, dos seus complexos e infelicidades.

Querem ir? pois que vão. Querem voltar? Façam o favor. Só não me chateiem muito.

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Passamos o dia a desinfestar a casa. Bichos desparasitados e trancados na varanda, tudo o que podia ir à máquina enfiado em sacos pretos para ser lavado a 40º, casa limpa, spray anti-pulga em todos os cantos, uma canseira. Não reclamou uma vez. Não se queixou do facto de eu ter trazido os animais para casa, sacanas que já o conquistaram e ele nem gostava de bichezas. Não insinuou que provavelmente foi esta minha mania de mexer em tudo o que é vadio, a causa da infestação. Fez o trabalho mais sujo, o mais pesado, e nem pestanejou.

Ao fim do dia fui ao pé dele e abracei-o, enquanto pensava na sorte que tenho por ele existir. Nesse exacto momento, ele diz-me ao ouvido: "ao menos temo-nos um ao outro".

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"Agora tens que resolver este problema e partir para outra"

"Não tarda nada já tens outro"

"Que chatice isso ter ficado aí"

"É pena, mas pronto, bola para a frente"

"Foi só um percalço, ainda és tão novinha!"

"Quanto mais depressa resolveres isso melhor"

 

Mas será tão difícil de entender que "este problema", este "percalço", "isso", foi durante mais de dois meses o meu bebé? Que não foi um rebuçado que me caiu ao chão mas não faz mal porque a seguir compro outro e está o problema resolvido? Que ter estado dias com o meu filho morto na barriga não foi "uma chatice", mas sim a tortura mais excruciante pela qual já passei na minha vida?

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Mas a frase "vocês ainda são tão novos!" não me traz consolo. Quanto muito enraivece-me, pelo o facto de utilizarem a minha idade para tentar menosprezar a minha dor.

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Tinha acabado de saber, e por isso aquela necessidade histérica de gritar ao mundo. Mas não se pode, diz que dá azar, que devemos ser contidos, que não podemos preocupar os outros com uma coisa que pode ainda correr tão mal, egoísmo nosso. Então escolhi postar no blog, escondida atrás do meu anonimato, porque eu não sou a Mia, a Mia é a pessoa que escreve aqui no blog, e quem me havia de reconhecer, não é? Oh que alegria, poder dizer aquelas palavrinhas "em voz alta".


Assim que publiquei arrependi-me. Ai meu Deus que ainda alguém descobre quem eu sou. Ai que nem sequer contei à minha mãe e espetei com a notícia na net, o que fui eu fazer? Apagar estava fora de questão. Então pensei que o melhor seria esperar mais uns tempos para voltar a falar sobre o assunto. Talvez não até às 12 semanas, uma eternidade, mas até aquela ecografia quase no fim das nove, aí já estaria mais segura.

O tempo foi passando, e eu fui sossegando. Escrevia posts que guardava em rascunhos, para mais tarde partilhar. Estava tudo a correr tão bem, porque haveria de falhar agora tão perto dessa meta que é o primeiro trimestre? Aos pouquinhos, fomos contando às pessoas mais próximas, porque afinal, se corresse mal não iríamos querer o apoio delas?

As nove semanas chegaram, e estava tudo pacífico. Melhor que pacífico aliás, imagine-se que até os enjoos me deram descanso. O peito não me doía tanto. Até já tinha conseguido voltar a dormir uma noite inteira, que maravilha! Havia uma vozinha cá dentro que me dizia que não estava certo, que não era suposto ser assim. Mas ao mesmo tempo muitas vozes cá fora diziam que não, que isso é stress de mãe de primeira viagem... e o que sei eu, na verdade? Nove semanas quase no fim, e a tão esperada ecografia era ontem. E não foi preciso a médica dizer nada para eu perceber o que se passava. O coração não batia, o bebé não mexia. Soube no segundo em que o vi, que tinha acabado ali.

Agora não sei como reagir, oscilo entre a apatia e a depressão, e às vezes passo pela raiva e dou um pulinho ao optimismo e penso que (também) isto vai passar, e que para a próxima correrá melhor.

Uma grande amiga que há uns tempos passou pelo mesmo disse-me, nesse dia: "Não é o fim do mundo. Mas é o fim do meu bebé."
Acho que nunca tinha compreendido verdadeiramente o significado dessas duas frases. Até ontem.

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"Cozinhei" uma massa instantânea na cafeteira do meu quarto de hotel. Comi-a à colher, numa chávena de chá. Bem boa que estava.

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Yin Yang

por Mia, em 30.03.16

Os últimos meses foram verdadeiramente infernais. Não me lembro de alguma vez terem acontecido tantas coisas tão más em tão pouco tempo.

Em compensação, hoje tive a melhor notícia da minha vida.

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...

por Mia, em 24.10.15

Sobre aquilo de voltar onde se foi feliz, já tenho uma resposta. Não, definitivamente não.

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publicado às 11:00

Nem eu sabia as saudades que tinha de estar aqui, longe de casa, sem conhecer ninguém, de poder fazer o que me apetece, quando me apetece, andar a pé, observar pesoas sem ter que socializar... Há quem faça retiros espirituais, eu venho passar uns dias à capital.

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Suspeito que o meu homem me espanca durante a noite. É a única explicação plausível que encontro para andar constantemente com nódoas negras e não fazer ideia de como foram lá parar.

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E quando um dos vossos melhores amigos vos dá a sua opinião sobre a nova aquisição do vosso ex, referindo-se a ela como "um avião", "meu deus que puta de gaja boa", "todos os gajos ficaram a babar" e afins? E depois ao ver-vos deprimidas remata com "tu também não és feia, não fiques assim."?

 

Não. És. Feia.

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...

por Mia, em 02.09.15

Não, não há data. Não há nada em concreto. Não andamos a ver quintas, não vamos a expo-casamentos, não fazemos sequer ideia em que ano será.

Sim, é uma bandalheira. Não se apoquentem, que eu também não.

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Do desespero

por Mia, em 01.07.15

Há uma pessoa na minha vida a que se esquece das coisas aproximadamente 5 minutos depois de eu lhas contar.

Às vezes, só às vezes, sinto que estou a falar com um peixe.

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Ontem tinha tantos planos...

por Mia, em 30.06.15

Ia chegar a casa, fazer o jantar, uma coisa saudável e fofinha. Depois prepararia o almoço para trazer hoje para o trabalho, arrumaria tudo e sairia para descarregar as minhas mágoas nos saldos. Ia ser uma noite feliz.

 

Ia. Disse eu.

 

Em vez disso, cheguei a casa, avariei o meu portátil e passei a noite a arranjá-lo. E comi uma pizza. Quando finalmente terminei era uma da manhã, resolvi que era hora de ir dormir. No caminho para o quarto pisei vómito de gato com o meu pezinho descalço.

 

Há noites assim, espectaculares.

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publicado às 10:27

Pity party*

por Mia, em 29.06.15

Sinto-me sozinha. Uma das minhas "grandes" amigas deixou de me falar, do nada, e nem se dignou a explicar-me porquê. O meu homem é um doce, mas é péssimo a consolar pessoas e é a pessoa mais distraída que eu conheço. A minha mãe odeia-me, assim como ao meu irmão, porque detestamos o namorado dela que é uma besta oportunista. Trabalho como uma mula e às vezes sinto que não tenho tempo para viver. Vejo o meu pai raramente, e metade das vezes não presta atenção ao que eu digo e faz-me sentir invisível. Tive que adiar, mais uma vez, um dos sonhos da minha vida. Acho que estou mais gorda, apesar da fita métrica, essa cabra mentirosa, dizer o contrário. Cada dia que passa vejo os meus avós a envelhecer mais um pouquinho, e morro de medo do dia em que ficar sem eles porque não sei se vou saber viver assim. Por outro lado isso recorda-me todo o tempo que estou a passar longe dos meus pais, e como sei que a vida é curta e um dia todas estas guerras e picardias vão parecer tão insignificantes e a saudade e a culpa vão pesar tanto. O meu homem está sempre longe e eu sinto tanto a falta dele, mas odeio-o um bocado quando ele volta porque sei que não tarda vai embora outra vez. Os meus sobrinhos estão a crescer tão depressa, depressa demais, ainda ontem lhes mudava fraldas e agora vão para a escola, não há direito de fazerem isto a uma pessoa. Às vezes apetece-me falar com alguém e sinto que não há ninguém que me compreenda.

 

Sinto-me tão terrivelmente só.

 

 

 

*Regressaremos à programação habitual dentro de instantes, não se apoquentem.

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Pessoas das leis, cheguem aqui

por Mia, em 16.06.15

Ligou-me há pouco uma pessoa que desconheço para me informar que a minha senhoria vai vender a casa onde habito (e cujo contrato de arrendamento vai a meio) mas que não me preocupe porque o novo dono "fica comigo" à mesma.

 

Eu cá não percebo nadinha destas coisas, mas a troca de proprietário não invalida o contrato em vigor? Ou isto é uma rebaldaria e eu sou "vendida" junto com a casa? É que está-me aqui a parecer que eu talvez devesse ter algum voto na matéria, quanto mais não fosse para dizer quero ou não quero arrendar a casa ao novo proprietário...

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Preciso desesperadamente de ficar rica. De não ter que trabalhar mais um único dia na porca da vida, de não ter que ver o meu homem a voar para longe todas as semanas, de não ter que acordar cedo e viver agarrada ao telemóvel e à agenda, a encaixar a vida em horários contados e a esperar que chegue depressa a noite ou o fim de semana.

 

Estamos conversados?

Agradecida.

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O cabrão do treçolho é no olho direito, mas o meu olho esquerdo está armado aos cucos e rejeitou as lentes.

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