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Continuando no tema da mama

por Mia, em 23.06.17

Não sei se dá para reparar, mas é mesmo um assunto que me mexe com os nervos.

 

Conheço uma pessoa que embarcou numa depressão pós-parto porque não conseguia amamentar. Culpo a nossa sociedade, e acima de tudo os nossos profissionais de saúde, por isto.

No hospital, somos ensinados que não há outro caminho que não a amamentação. Que não podemos desistir. Que é a única forma de o nosso filho criar vínculo com a mãe. Que temos que gostar. Que uma mulher é menos mãe se não amamentar. Não se coloca a hipótese de a mãe não conseguir, de o leite ser fraco, de o bebé ou a mãe não o poderem fazer, ou - heresia - de a mãe não querer.

A nossa lei não permite a publicidade a leite artificial - porquê?! Quando foi que voltamos à época da censura? Quem foi que decidiu que esse assunto é tabu e não se pode falar sobre ele sob pena de as nossas crianças ficarem todas subnutridas?

Há tempos fui a um workshop de amamentação, e a responsável pela marca que patrocinava o evento explicou-nos que não nos podia mostrar os biberões e chupetas da marca porque eram "amigos da amamentação". Portanto, eu posso passar uma hora e meia a ver exemplos práticos de como utilizar todos os modelos de bomba de extracção de leite, fazer testes a discos de amamentação, experimentar creme para mamilos gretados... mas não posso ter noção de que existe um plano B se as coisas não correrem tão bem? Faz algum sentido? Como é que uma marca "amiga da amamentação" não é uma marca amiga do bebé? Como é possível defender que é preferível uma criança chorar horas a fio do que utilizar uma chupeta? E quem diz marca diz hospitais, médicos, enfermeiros. Que espécie de profissionais são estes que parece que têm palas nos olhos e não admitem soluções alternativas quando as ditas ideais não estão a fazer bem ao bebé ou à mãe?


A minha amiga nunca foi uma extremista da mama, assim como eu não sou. Mas interiorizou que seria o melhor para o seu bebé, e mentalizou-se de que o faria, no mínimo, pelo tempo recomendado pela OMS. Quando a criança nasceu, não mamava. As enfermeiras tentaram ajudar, corrigiu-se a pega, desfizeram-se as pedras causadas pela subida do leite, comprou-se uma bomba, tentou-se de tudo. E o bebé perdia peso a olhos vistos. Não dava. A insistência estava a por em risco a saúde do bebé, e ela foi forçada a desistir, e enterrou-se num buraco de desespero profundo. Porque toda a gente lhe apontava o dedo. Porque era péssima mãe. Porque não fez o que era suposto. Porque não foi suficientemente boa para o filho dela. Aquele que tinha tudo para ser o momento mais feliz da vida dela foi negro, marcado pelo falhanço, pela insegurança e pela solidão.


Gritamos aos quatro ventos que as mulheres devem ser livres de fazer o que quiserem com o seu corpo. Defende-se, por exemplo, o aborto como opção válida em qualquer circunstância, e qualquer pessoa que questione o porquê ou verbalize qualquer julgamento de valor é um insensível para com a mulher, o corpo é dela e ninguém a pode obrigar a gerar uma vida. Mas obrigar a amamentar é aceitável?

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12 comentários

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De VeraPinto a 23.06.2017 às 12:16

Mais uma vénia. 
Há uns dias, ainda que num tema completamente oposto a este, preciso de contar como ainda esta gente funciona nas questões das opiniões e fundamentalismos da vida dos outros.. 
Estavam a cercar-me com conversas sobre ainda não ser mãe nem mostrar grande interesse nisso (tenho 28 anos e casei há 11 meses - o escândalo ainda não estar prenha.) Estou tão cansada disso e das acusações disfarçadas de que as mulheres só são mulheres se quiserem ter filhos, que respondi que as pessoas antes de falarem têm que ter alguma sensibilidade porque podem estar a falar com um casal com problemas de fertilidade e a cavar ainda mais a frustração destas pessoas. Confessei até a titulo de exemplo que tenho síndromes de ovários poliquisticos, e um dia não será fácil gerir a situação da gravidez, pelo que pedia que respeitassem a minha privacidade se as coisas acontecessem. 
Continuaram com as frases feitas que por isso mesmo tenho que engravidar o mais rápido possível, porque o meu marido podia perder o interesse em mim porque não "dava filhos."
Levantei-me, e mesmo que possuida pela raiva disse educadamente, eu até podia nunca ter filhos, seja por decisão ou por problemas de saúde, mas nunca ia ser menos mulher do que sou hoje e do que ninguém. 
Responderam, mas mesmo antes de abrir a boca percebi o choque que atravessou o corpo delas pelo escândalo. 
- Claro que não! Nunca disse isso! - quando o disseram com todas as células do corpo. 


E o que me chateia com isto tudo? São as mulheres que são tão más com elas mesmo.  
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De Mia a 26.06.2017 às 10:22

Outro tema que também me mexe com o sistema nervoso. Onde é que está escrito que uma pessoa é mais ou menos mulher por parir? Acho giro que as mesmas pessoas que tentam impingir bebés a torto e a direito são aquelas que apontam primeiro o dedo às que não são boas mães, e dizem de peito cheio que nunca deviam ter tido filhos. É muito fácil mandar bitaites da vida dos outros, não é?

E sim, a maior parte destas bocas vem de outras mulheres. Aliás, já me chegou a acontecer ouvir bitaites de uma pessoa que lutou anos contra a infertilidade, e anos mais tarde me veio atirar à cara que eu já devia ter filhos, sem saber se eu podia, se estava a tentar, se queria ou não. A minha educação impediu-me de lhe perguntar se ela não se lembrava do que era querer e não poder e de como lhe fizeram mal todos os comentários que ouviu durante os anos em que não conseguiu. Hoje teria falado, até porque foi a mesma pessoa que em Dezembro se queixou que havia poucas crianças na família e que eu já devia ter tratado disso - sabendo perfeitamente que o bebé que eu perdi teria nascido nessa altura!! Por acaso já estava grávida nesse dia - ela não sabia - mas se não estivesse tenho a certeza que teria ficado ainda mais triste.
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De Anónimo a 28.06.2017 às 16:19

Então espera pelo nascimento da criança que vais ver o que é palpites no filho dos outros...nunca nada está bem feito nem deve ser feito desta maneira e as avós saõ a maior praga que existe, tudo o que elas fizeram aos filhos agora não se aplica aos netos e só elas é que sabem...eu já respondi à minha mãe que eu só ia ser boa mãe quando fosse avó!!!
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De Mia a 29.06.2017 às 15:17

Nem é preciso esperar que nasça, já toda a gente tem imensas opiniões sobre tudo e mais um par de botas, é adorável... só que não. O meu filho tem a sorte de ter duas avós amorosas, espetaculares, dedicadas, que já o adoram de paixão, por isso sei muuuito bem a que te referes :D aliás, algumas das histórias e comentários mais insólitos que já ouvi e que vou partilhando aqui são da autoria das avós...
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De Happy a 23.06.2017 às 12:45

Não fazia ideia de uma série de coisas que escreveste...  
Eu quando amamentei, o puto tinha fome logo ao fim de 1 hora e o pediatra mandou-me logo começar a intervalar com leite de biberon. Mama, biberon, mama, biberon. Claro que o puto deixou logo a mama porque o biberon era menos esforço...
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De Mia a 26.06.2017 às 10:13

Também só soube de algumas coisas recentemente... Lá está, provavelmente no teu caso o leite não estava a suprir todas as necessidades do bebé, e não foi muito melhor optar por essa abordagem? Há mães e médicos que nunca o fariam, e eu odeio esse tipo de fundamentalismo.
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De Jess a 23.06.2017 às 16:08

Concordo. A amamentação é certo que é algo benéfico para o bebé, mas cada um deve ser livre de escolher, além de que por vezes não é possível. 
Acho bem que incentivem ao máximo a amamentação, mas não se pode cair em extremos.
Cá em França não há quase incentivo nenhum, são poucas as mães que conheço que amamentaram, desistem logo ou nem sequer tentam... o que também é de lamentar.
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De Mia a 26.06.2017 às 10:10

Exacto, nem 8 nem 80. Acho bem que se enalteçam os benefícios para o bebé, de forma a que não se caia nesse extremo de quase ninguém o fazer. Mas uma coisa é aconselhar e informar, outra coisa é "obrigar" e tratar mal quem não o quer ou não o pode fazer!
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De miss sixty a 26.06.2017 às 12:05

eu gostava de ter amamentado... não consegui
estava o miúdo stressado que não conseguia comer e eu stressada que ele não comia... enfim.
a coisa resolveu-se a leite adaptado e correu sempre tudo bem, ninguem se "chateou" mais e cresceu bem e saudavel :)


mas sim, ainda sofri um bocadinho com o "tens que o por na mama" :/
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De Mia a 29.06.2017 às 15:33

Não vou mentir: não gosto da ideia de amamentar. Mas é o que irei fazer, se conseguir e se tiver condições para tal. Acho que esta pressão que é exercida sobre as mães tem muito mais contras do que prós, e para uma mãe que queira mesmo e não consiga deve ser um desespero tanto apontar de dedo.
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De t2para4 a 27.06.2017 às 12:04

Ai se eu voltasse atrás no tempo... Pintaram-me uma ideia romantica e mamífera da amamentação. Foi horrível: doeu imenso a primeira pega; alguém teve a ideia genial que amamentar dois recem-nascidos o mesmo tempo, 3h depois de uma cesariana e cheia de fios e tubos era uma excelente ideia - não é; as minhas meninas não gostavam de leite - nem de mama nem de biberon - se pudessem apenas alimentar-se do ar, ficavam satisfeitas;a subida de leite doeu mais do que a cesariana; amamentar doeu-me todos os segundos que o fiz, todos. Graças a Deus, uma enfermeira da velha guarda, uma querida, ajudou-me e fomos intercalando o leite materno com o artificial.E sabem que mais? Resultou. 
Ao fim de 3 semanas e de um total desalento (além de que, como fui despedida de um colégio durante o puerpério, fiquei numa pilha de nervos terrível), sequei as poucas gotas de leite que as piolhas conseguiam mamar e dediquei-me exclusivamente a alimentá-las com a devida calma, sem olhares diretos para as mamas, sem chatices de bebe-não bebe, de ganha ou perde peso, de sofre e chora, de mamilos gretados. Mantiveram sempre o percentil, foram miúdas saudáveis (apesar de tudo pois o sistema imunitário delas - talvez por conta do autismo, não se sabe - pareceu-me um pouco mais baixo que o dos pares da mesma idade) e o vínculo-amor nunca precisou de uma mama na boca para existir. E considero-me uma boa mãe. Imperfeita mas a boa mãe de que elas precisam.
Segue a tua intuição. Saberás sempre o que fazer.
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De Mia a 29.06.2017 às 15:31

Não há mães perfeitas, e quem disser o contrário mente.
Haverá casos em que amamentar é o melhor para mãe e filho(s), outros em que não, acredito que a ponderação é a melhor solução. Fico feliz por teres encontrado uma solução que foi boa para todos!

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