Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Não acho. Mesmo. Nem por sombras.

 

Mentiria se dissesse que nunca tive dúvidas quanto a isso. Houve um momento em que questionei a competência dele enquanto pai.

 

 

{O monstrinho tinha poucas semanas de vida e estava a fazer uma pequena birra e constantemente a cuspir a chupeta para o chão, e ele repreendeu-o, zangado. E eu mais zangada fiquei. Concedo que o pai estivesse cansado, exausto, impaciente, mas não se repreende um recém nascido que não tem qualquer controle sobre as suas acções. Aquilo perturbou-me de tal forma que ficou a marinar na minha cabeça durante dias, até que acabei por me sentar com ele e por as coisas em pratos limpos: assim não. Não tolero que descarreguem frustrações no meu filho, muito menos o pai dele. É suposto sermos o seu porto de abrigo, e farei todos os esforços para que isso aconteça, nem que isso implique abrir mão da minha relação - dose extra de drama para provar um ponto. Ele reconheceu o erro, pediu desculpa, prometeu não repetir, e desde então tem sido exemplar.}

 

 

Mas eu queixo-me, claro.

 

Queixo-me de ele se apoiar demasiado em mim, de contar comigo para tudo. Sei que ele não conseguiria responder a perguntas básicas como "qual é o nome da vitamina que ele toma?" ou "quando foi a ultima vez que trocamos os lençóis do berço?" ou ainda "onde estão os gorros?". Sei que isso se deve ao facto de não ser preciso ele saber essas coisas, porque a vitamina é dada de manhã e eu assumi a responsabilidade de a dar para evitar sobredosagem, porque os lençóis são trocados à quarta-feira de manhã, e porque toda a organização do quarto dele é minha responsabilidade - para além de ter mais tempo, faço gosto nisso.

 

Sei que há um motivo lógico para eu saber essas coisas e ele não. Sei que ele não precisa de as saber, porque estou cá eu. Mas assusta-me pensar: e se eu falhar?

 

Ele contrapõe: se tu falhares eu arranjo-me. Sei o essencial, e o resto aprenderia se fosse necessário.

 

Tem lógica, mas às vezes ainda me incomoda, e queixo-me, claro, não sei se já disse. Sou pessoa de se queixar muito de barriga cheia.

 

Nunca tinha pensado no impacto que as minhas palavras teriam nele.

O meu homem é uma pessoa muito pouco dada a queixas e dramatismos. E isso faz com que, por vezes, seja muito fácil esquecer que ali dentro daquela carapaça também há um coração. Nunca me passou pela ideia que ele assumisse as minhas queixas como um atestado de incompetência. E partiu-me o coração que ele pudesse pensar que era um mau pai, por minha causa.

 

Basta ver a reacção que o monstrinho tem quando ele chega a casa todos os dias, para perceber que há ali uma paixão assolapada pelo pai. Derreto-me a ver a forma como ele brinca com o filho, como lhe inventa canções, como faz aviãozinho. Como, sendo ele uma pessoa pouco dada a demonstrações de afecto, lhe mostra diariamente que o adora. Aquece-me a alma ver o cuidado com que o embala, o veste e lhe troca a fralda - mesmo que demore três vezes mais tempo do que eu.

 

O meu homem é o melhor pai que o meu filho poderia ter. E entristece-me a ideia de ele poder pensar de outra forma.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:37


6 comentários

Imagem de perfil

De Ana a 12.12.2017 às 09:47

Porque nos salta demasiada a tampa a nós. Porque há coisas que nos parecem básicas e eles andam a leste do paraíso. É isso. Compreendo bem. Mas não te recrimines pelas queixas. Se te queixas, é por algo não está bem. ele é adulto. Tem que saber lidar com isso.
Imagem de perfil

De Mia a 31.01.2018 às 10:59

É verdade, mas eu acho que também me queixo muito sem razão. Na verdade, se ele não faz mais, muitas vezes é porque eu não lhe dou espaço para isso. Mas depois vou-me queixar porque não fez. Sou assim, complicadinha!
Imagem de perfil

De Rooibos a 14.12.2017 às 09:46

Revi-me muito no que tu disseste. Por razões de disponibilidade, também foi sempre a minha mulher que esteve (e está) mais dentro das coisas dos nossos filhos. Claro está que, quando eu pergunto alguma coisa, às vezes recebo de volta respostas como "tu também devias saber". Mas não sei.
Também lá em casa ela me manda sossegar quando ralho. Mas ela também ralha, e eu não me meto. Mas quando é comigo, vem logo a dizer "tem lá calma".
Imagem de perfil

De Mia a 31.01.2018 às 10:57

Por muito que queiramos contrariar a sociedade machista, a verdade é que o papel de mãe e pai não são iguais. Nem poderiam, é a mãe quem carrega o filho e só isso já muda tudo. Tenho-me esforçado por incluir o pai do meu filho cada vez mais nas tarefas diárias. É bom para todos nós, e acho que neste momento temos uma dinâmica muito boa: nenhum de nós está sobrecarregado e o bebé tem o mesmo nível de cuidado, quer esteja com o pai, com a mãe.
Imagem de perfil

De Rooibos a 31.01.2018 às 14:16

Tocas num ponto que sempre me fez confusão: se o que torna o papel de mãe diferente é o facto de ter carregado o filho, será diferente ser mãe adoptiva ou biológica?
Imagem de perfil

De Mia a 01.02.2018 às 16:08

É uma questão pertinente. Antes de mais, não está em causa intensidade de amor. Acho que isso vai de pessoa para pessoa, há mães que carregam um filho e não sentem nada por ele, e há mães (e pais) que adoptam um filho que não é seu e o amam incondicionalmente. O que quero dizer é que a ligação mãe-filho começa muito antes da ligação com qualquer outra pessoa, seja pai, seja mãe/pai adotivo. Durante a gravidez, a criança é um ser abstrato para quem assiste, sabe que está lá, gosta dela, mas... é diferente. A mãe sente-o todos os dias, a toda a hora, e há qualquer coisa de animal nisto. Quando a criança sai cá para fora, a mãe sabe, instintivamente, o que fazer. O bebé reconhece-lhe o cheiro, a voz. No momento em que a criança nasce, a mãe sai "em vantagem", digamos assim (com aspas, porque não são só arco-íris e unicórnios), enquanto que o pai está a começar praticamente do zero. O mesmo se aplica a uma mãe adotiva. Se um pai ou uma mãe adotiva têm uma ligação diferente com o bebé no início? Acredito que sim, diz-se que o bebé nos primeiros três meses ainda pensa que faz parte da mãe, portanto esta relação mãe-filho tem que ser diferente de qualquer outra. O meu comentário anterior vai nesse sentido. Apesar de tentar contrariar, tenho tendência para querer tomar conta de tudo. Porque é mais fácil, porque o bebé chora menos comigo - já nasceu habituado - porque é mais rápido, porque achava que ninguém conseguiria tratar dele como eu - o tal instinto animal, etc. etc.

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D

Oh, não gostaste do que escrevi?