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Dois cabelos brancos

por Mia, em 07.11.18
A brincadeira começou há coisa de um ano atrás. Apareceu tímida, pequenina e quase imperceptível: a minha primeira branca. Não fui de meias medidas e arranquei-a. Ah, não deves porque nascem mais sete. Caguei. Voltei à minha vida, feliz e contente, até que na semana passada, enquanto esticava o cabelo, olho no espelho e lá está a puta outra vez. Raça da branca, ali no mesmo sítio, desta vez um pouco maior. Arranquei. Ah, não deves, porque... SHHHHHH! Acabou-se o cabelo branco, e tudo estava bem no universo outra vez, até que hoje dou com mais um. Semi-branco, ainda da cor original em baixo mas branco na raiz, como que a lembrar o que vem aí, que a vida avança e uma pessoa não vai para nova. Isto dos cabelos brancos pode parecer uma futilidade, há quem me diga até que é ridículo queixar-me dos meus dois cabelos brancos considerando que estou a bater nos 32 e há muito boa gente da minha idade com meia cabeleira grisalha. Entendo. Mas para mim isto é muito mais do que vaidade. É um lembrete de que a vida não dura para sempre, que o corpo começa a estragar-se, e que a nossa presença neste mundo passa tão rápido. E caramba, como eu gosto de cá andar.

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Cá por casa tudo igual, tudo diferente. Deixei o meu emprego e comecei o novo, e a adaptação, ainda que tenha custado nos primeiros dias, tem sido uma agradável surpresa. Trabalhar na minha cidade é tudo o que eu esperava que fosse: saio com 30 minutos de antecedência de casa, vou deixar o monstrinho à creche, visto-lhe a bata, dou beijinhos, "a mamã adora-te e volta logo", e vou-me embora, a pé. Chego ao trabalho 5 a 10 minutos antes da hora. Ao fim do dia, o percurso inverso, desço a rua e em 6 minutos estou a abraçar o meu pequeno. E não há nada que pague isso. 

 

Para ele, a mudança foi um pouco mais difícil. Estive com redução de horário até sair da empresa antiga, e ainda que trabalhasse a uma hora de distância, no máximo às 17h ele estava a sair. Passar a sair uma hora mais tarde foi doloroso. No primeiro dia cheguei e já só estava ele e outra menina, e o meu coração de mãe partiu-se em mil pedacinhos. Questionei todas as decisões que tinha tomado, mas depressa concluí que se tivesse continuado onde estava, e terminada a amamentação, passaria a ir buscá-lo ainda mais tarde (nunca antes das 19h30), por isso vamos ter que nos adaptar. Todos. Tivemos choro de manhã, birras de cansaço ao final do dia, mas aos poucos a coisa vai estabilizando.

 

E falando em monstrinho, as coisas que esta criança aprende de dia para dia? Não vos vou contar grandes feitos, não direi que é um prodígio ou sequer avançado para a idade no que quer que seja. É um miúdo normal, cada vez menos bebé e mais menino, e eu saboreio cada pequena conquista. Começou a andar (e mais recentemente a correr) e agora o mundo é dele. É curioso, astuto, aprende rápido. É meigo e carinhoso, tira comida da boca dele para nos dar se pedirmos, faz miminho, sorri e dá abraços com fartura. Mas também tem mau feitio: aprendeu a birra e agora atira-se para trás quando é contrariado, chora, deita-se no chão. Não damos importância para que não veja isso como 'arma' para conseguir o que quer. Come bem, dorme bem (ultimamente nem tanto, ora são dentes, ora gastro, ora constipação, uma ramboia), não dá chatices. É um bom menino.

 

Começamos a preparação para o casamento e já estou exausta. Amanhã faço a primeira incursão no mundo dos vestidos de noiva, logo vos conto como correu, mas vou com expectativas baixinhas baixinhas. Já as quintas são toda uma outra epopeia. Só queríamos um espaço amplo, mesas de madeira corridas e cadeiras simples, já agora a preço de gente. Aparentemente é pedir demais, e ainda não vimos nada que fugisse ao clássico: mesas de vidro, poltronas, veludo, pérolas, cristais, véus a cair do tecto, dragões a cuspir fogo... esta última pode ser exagero mas vocês perceberam a ideia. Passamos dois dias a ver quintas e quase desisti de casar. Não há de ser nada.

 

Na correria da vida, o blog passou para 76352º plano. Adorava vir cá com mais frequência, faz-me falta escrever e ler-vos (ainda está por aí alguém?), mas o tempo voa, uma pessoa escreve posts mentalmente enquanto está no duche ou antes de adormecer, mas depois nunca os passa para o papel (salvo seja), outros blogs são lidos de fugida nas salas de espera de consultórios ou em tempos mortos - que são cada vez menos - passam-se dias, semanas, meses e pronto. A ver se consigo vir cá mais vezes. 

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publicado às 17:33

Nunca pensei que fosse desta forma.

Sempre tive medo de morrer, desde que me lembro. Mas era um medo mais focado na dor de morrer propriamente dita, nunca no mundo que deixaria para trás. Mas agora este pensamento não me larga. Talvez a esse tal aumento de consciência se tenha juntado a morte de um familiar e doença oncológica grave de outro, nos últimos meses, e essa mistura tenha provocado aqui qualquer coisa em mim. A verdade é que não há dia que não pense na minha morte antes do tempo. Em tudo o que iria perder. Em como o mundo continuaria sem mim. Quem cuidaria do meu filho? Sim, ele tem pai, mas mãe é mãe. Será que alguém trataria dele como eu faço? Como seria para ele viver sem mãe desde tão novo? Não penses assim, penso. Esquece isso. Não se passa nada. Pois. Mas como tiro esta angústia aqui do meu peito?

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Fechando o ciclo

por Mia, em 10.08.18

Nunca fui de me queixar muito aqui do meu trabalho, ou pelo menos de entrar em grandes pormenores, por variadíssimos motivos. Fosse por receio de ser lida pelos olhos errados, por considerar falta de profissionalismo fazê-lo, por não gostar de cuspir no prato onde como, por questões de confidencialidade, às vezes até mesmo por preguiça.

 

 

A verdade é que gosto bastante do que faço, mas essa paixão foi-se desvanecendo por questões de fraca gestão. Por muito profissional, competente ou talentosa que uma pessoa seja, é facto que, tal como se deixarmos de regar uma planta ela morre, se não compensarmos devidamente uma pessoa, a chama vai-se. Vale para todos os campos da nossa vida, e nem sempre é dinheiro.

 

 

No meu caso, nunca pedi mais dinheiro, pedi hierarquia. Queria estar ao nível dos colegas que faziam o mesmo (ou menos) do que eu. Para terem uma pequena contextualização: há 6 anos que tenho funções de gestão de equipas. Equipas que me são hierarquicamente superiores. Estando numa organização multicultural, focada numa realidade em que as mulheres já partem em desvantagem e a posição na empresa é sobrevalorizada, fazer valer a minha vontade enquanto líder foi sempre mais complicado do que teria que ser.

 

 

Hierarquia. Ao longo dos anos, foi a única coisa que fui pedindo. Em troca dei cargos muito acima do que vinha no meu recibo do vencimento, executados com sucesso. Dei noites, fins de semana, viagens pelo mundo. Tempo e dedicação pessoal, engolir mais sapos do que o meu eu adolescente alguma vez aceitaria. Dei horas, dias, semanas, investidos em formação e aquisição de conhecimento, mais tarde usados para melhorar os processos e metodologias da empresa. Recebi palmadinhas no ombro, elogios, reconhecimento dos meus colegas e chefias, mais trabalho, cada vez mais desafiante. Mas não recebi o que pedia e considerava justo.

 

 

A vida é como é, quem não está bem muda-se e é tempo de perseguir outra oportunidade que (espero) será melhor para mim. E vou, claro, mas não deixo de sair com um amargo de boca. Não deixo de pensar que o meu emprego dos últimos 8 anos, do qual eu gostava e onde me sentia já parte da família, não tinha que deixar de o ser, se as coisas tivessem sido geridas de uma melhor forma. Saio entusiasmada pelo novo desafio que se avizinha e oportunidades que me vai proporcionar, mas saio também um pouco triste.

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Nervos

por Mia, em 08.08.18

Disse que sim.

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É uma coisa nova em mim, e começou na semana passada. Foi uma semana louca de trabalho, misturado com uma formação super complexa que ando a fazer, um miúdo constipado, e - a cereja no topo do bolo - a festa de aniversário do monstinho, nada de especial, um modesto lanchinho cá em casa para avós, tios e primos e meia dúzia de amigos, 70 pessoas coisa pouca (nem me digam nada).

 

Juntem a isto as temperaturas infernais dos últimos dias, e é a receita para o desastre.

 

Começou na sexta-feira ao final do dia. A trabalhar de casa, andava a saltitar entre a cozinha e o escritório, num frenesim louco: corre processo - mete bolo no forno - valida dados - verifica se está pronto, aproveita e bate umas claras para a mousse - envia report do dia - desenforma o bolo e vai fazendo as gelatinas. Uma loucura. Ao final do dia, comecei a sentir-me estranha. De imediato o pensamento pior assolou-me: vou ter um ataque qualquer e morrer aqui, e não vejo sequer o 1º aniversário do meu filho. Palpitações. Suores frios. Tonturas. Acho que tive um ataque de pânico.

 

Pedi ajuda e estive largos minutos debaixo do ar condicionado a tentar respirar lentamente. Não conseguia esvaziar o cérebro. Não conseguia respirar. Cenários horríveis passavam-me pela cabeça. Forcei-me a deitar um pouco, passei pelas brasas. Tentei relativizar a questão da festa: se não der, não deu. Em ultimo caso compra-se um bolo qualquer. Põe-se a vela num queque. Qualquer merda.

 

Acordei um pouco melhor, para piorar de seguida. Algo não estava bem, não sei apontar uma dor física, mas de alguma forma estava claramente incapacitada. Arrastei-me pela casa, tentando fazer o máximo possível. Ao deitar o miúdo, choque de realidade: faz um ano que passei a ultima noite com ele na barriga. Tive imediatamente um pequeno ataque de choro, que de alguma forma me libertou. Acabei por conseguir terminar nessa noite os doces em falta e nem réstia do mal-estar que me tinha assolado momentos antes.

 

No dia seguinte, a brincadeira repete-se. Festa marcada para as 16h, eram 10h da manhã quando me comecei a sentir novamente estranha. Tinha a certeza que era sistema nervoso, que havia de ter a tensão nos píncaros, e não sosseguei até ir à farmácia medir. Tudo normal. Venderam-me um calmante natural e siga para casa. Mas eu não estava mais calma. Não era uma coisa racional, porque vejamos: se é um lanche com a nossa familia e amigos mais chegados, porque haveria de estar nervosa? Não sei. Não achei que estivesse. Mas o meu corpo aparentemente estava. Dormi meia hora. Acordei, mas ainda não estava bem.

 

Pedi ajuda. E que bom que é ter a quem pedir essa ajuda. Em pouco tempo a minha casa foi invadida e de repente já tinha uma pessoa em cada canto, fosse a preparar doces, a encher balões ou a orientar as coisas. Fui tomar um banho, tentei relaxar um pouco, e lentamente voltei ao normal. Muito lentamente mesmo, só perto das 21h consegui por qualquer coisa no estômago porque até lá as náuseas não me deixavam.

 

Achei que não ia voltar a ter este tipo de sentimento, mas domingo cá estava ele de volta. Não sei se relacionado com a casa estar em pantanas - lido muito mal com a desorganização - se foi do calor, se da semana que se avizinhava.

 

Ontem acordei bem, o dia estava mais fresco, estava tudo tranquilo, mas depois isto atirou-me novamente para aquele estado estranho que agora me acompanha todos os dias: peito pesado, náuseas, mal-estar que não consigo explicar bem. Não sei se isto é um ataque de ansiedade de verdade, se é outra coisa qualquer. Mas é algo que nunca tive e que apreciava não voltar a ter.

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Decisions, decisions

por Mia, em 06.08.18

Consegui um novo emprego, mais perto de casa que me permitiria passar menos tempo em viagens e mais com o meu filho, mas que se traduz num decréscimo salarial considerável (não tanto, se considerar as viagens) e num salto para o desconhecido. Sei que isto de ter mais do que uma hipótese é um não-drama, mas em mim está a gerar um pequeno ataque de ansiedade. Ponham-se lá no meu lugar e digam-me: o que fariam?

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Sobre esta merda das doenças

por Mia, em 30.05.18

Na passagem de ano, retomando uma tradição já antiga, fizemos algumas resoluções conjuntas. Nada de muito complicado, meia dúzia de objectivos escrevinhados numa lista das compras daquelas que colamos no frigorífico. Uma das resoluções era: fazer o monstrinho gargalhar todos os dias. E tem sido fácil de cumprir.

 

Ontem, pela primeira vez, falhamos. Não havia meio. Conseguimos um ou outro sorriso pálido, mas gargalhada nem vê-la. Foi a primeira vez em quase seis meses, e hoje parece-me que iremos pelo mesmo caminho. Tenho o coração tão apertadinho que tenho medo que se desfaça.

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Monstrinho começou a creche...

por Mia, em 30.05.18

...e desde então eu fiquei doente três vezes e ele duas, umas das quais uma virose macaca que não há meio de passar. Passamos a última noite a acordar de hora a hora para lhe vigiar a febre e tenho o coração do tamanho de uma ervilha anã. Isto agora vai ser assim para sempre?!

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publicado às 10:50

Faço hoje 31 anos

por Mia, em 24.12.17

Quando foi que o tempo passou, e porque é que ninguém me avisou?

 

Tenho ainda tão frescas as memórias da minha infância. Ainda sei a que sabem as almôndegas do infantário - a ver se convenço o monstrinho a trazer-me uma no bolso, eram as melhores de sempre - Tenho tantas memórias desses dias. Lembro-me perfeitamente daquela vez que me morderam ou de quando fiquei de castigo por cuspir a outro menino sem querer. Das sestas que ninguém dormia ou das festas no salão. Tenho bem presentes os dias da primária, como as meninas brincavam umas com as outras mas não comigo, ou daquela vez em que a professora me mandou não cantar porque parecia "uma cana rachada", e de como nada disso importava porque os meus verdadeiros amigos estavam fora da escola: as meninas da minha rua com quem brincava no sótão, os primos. Ainda sinto na boca o sabor a chipmix que partilhávamos em casa da avó, do leite quente com chocapic no inverno e do pão quente no verão, quando saíamos da piscina. Recordo as aulas de ballet, tantas vezes até de noite, de como treinava com afinco para um dia ser uma bailarina. Lembro-me de ter entrado para a preparatória, de como sentia que não pertencia a "tribo" nenhuma, dos tempos difíceis do início da adolescência. De ser chamada de "esticadinha" por causa da postura adquirida com anos de dança, de não aguentar o ritmo e me sentir encurralada. Recordo o início do secundário, aquele primeiro dia em que eu vestia uma saia branca até aos pés e um top azul sem costas - nunca me hei de esquecer - e todos os rapazes olharam para mim, coisa que nunca tinha acontecido. A adrenalina de saber que me podia reinventar e começar de novo - e assim fiz. Tenho ainda tão presentes as memórias dos meus amigos do liceu, o meu primeiro namorado, o divórcio dos meus pais, a tentativa de suicídio desse namorado. Vieram tempos negros e eu lembro-me de todos eles. Mas também sei o que veio depois. O meu primeiro grande amor, tão verdadeiro, tão intenso como só os amores adolescentes conseguem ser. A entrada na universidade, no curso que escolhi. Conhecer o meu homem, e todos os altos e baixos que tivemos ao longo dos anos. Desilusões, discussões, desgaste, dramas. Uma depressão e um esgotamento, está-me tudo gravado na memória. Bem como as grandes amizades que fiz, os momentos de galhofa, as conquistas, os beijos, os abraços, as palavras importantes. Entrar na idade adulta aos trambolhões, o primeiro emprego, mudar de cidade, fazer amizades que quase uma década depois ainda duram. Regressar às origens. Morar sozinha, morar acompanhada, tomar decisões importantes que me levaram onde estou neste momento. O nosso projecto de vida a dois. O meu filho que ainda ontem nasceu e já está aqui sentado ao meu lado a sorrir-me enquanto escrevo. Está tudo aqui, fresco na minha memória, as coisas boas e as más, as mais antigas e as mais recentes, como é que já vivi 31 anos?! Não quero. Parem o tempo. Uma vida não chega para tudo o que quero viver, e esta está, certamente, a passar depressa demais.

 

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Agora que - finalmente - temos cortinados nos quartos, abro as persianas sem medos. Dantes, por uma questão de privacidade, não o conseguia fazer, e por isso só agora pude reparar a sério na vista. O quarto do meu filho, como todos, aliás, dá para o jardim. Da cama conseguimos ver o relvado verdinho e o azul da piscina. Dou por mim a pensar em como foi tortuoso o caminho até chegar aqui, mas como sabe bem esta sensação de dever cumprido.

 

Obviamente, seríamos igualmente felizes num apartamento, ou numa casa mais modesta. Nunca tive a mania das grandezas, nem coisa que o valha. Mas para entender a importância que isto tem para mim, precisamos de recuar até à minha infância.

 

Os meus pais foram-no demasiado cedo. Um acidente de percurso que atirou dois adolescentes para um casamento forçado e uma vida remediada. Não tivemos luxos, mas nunca me faltou amor. Sei que o dinheiro não traz felicidade porque fui uma criança feliz, apesar de às vezes não haver dinheiro para comprar pão. Não pensem que alguma vez me faltou o que quer que fosse, longe disso. Mas fui desde cedo uma criança perspicaz, e sempre tive consciência de que vivíamos "à rasca".

 

Admiro, do fundo do meu coração, o esforço e ginástica que os meus pais fizeram para nos dar uma infância memorável. Nunca saímos do país no verão, mas íamos passar dias à praia aqui ao lado. O meu pai fazia as melhores construções na areia, e todas as crianças das redondezas vinham brincar connosco. Nunca tive festas de aniversário dignas de pinterest, mas a minha mãe fazia-me os bolos mais originais e nunca esquecerei o ano em que o meu pai encheu dezenas de balões até que o chão do sótão ficasse completamente coberto, ou das luzinhas de natal que ele espalhou pelas paredes e que criaram o cenário mais mágico de sempre. Não tinha um brinquedo caro no natal, mas tinha vários da loja dos trezentos, e delirava com cada um deles. Mesmo após o divórcio dos meus pais, durante a minha adolescência, nunca deixaram que o falhanço no casamento impactasse o nosso bem estar.

No entanto, desde que me lembro que me preocupo com dinheiro. Recordo-me de ser criança, e no café me perguntarem se queria um bolo e dizer que não, por não querer que gastassem dinheiro comigo. Ou de escolher o gelado mais barato em vez do que realmente queria. Ou de não contar aos meus pais que a mochila estava rasgada, para não terem que comprar outra.

 

 

Tracei, desde cedo, um plano para a minha vida. Havia de me formar. De arranjar um bom emprego. De estabilizar as minhas finanças. E depois teria filhos. Planeei recriar com eles tudo de bom que os meus pais fizeram comigo, com um pequeno twist: estabilidade financeira. Não quero que os meus filhos tenham preocupações, quero que sejam apenas crianças, felizes e seguras. Quero corrigir neles a única coisa que falhou na minha infância. Certamente cometerei outros erros.

 

 

As coisas demoraram mais do que eu previa. Gostava de ter sido mãe aos 25, mas a vida não mo permitiu. Olhando para trás, sinto-me grata por ter tido o discernimento para não dar esse passo. Não era sequer emocionalmente estável o suficiente para ser mãe. Atrasamos a decisão de ter filhos por nós, pelo nosso emprego, pela casa - um sonho que nunca pensei ver sair do papel e que de repente se realizou. Houve alturas em que me arrependi dessa decisão, mas neste momento sinto que as coisas aconteceram quando tinham que acontecer. Olho lá para fora e penso como seremos ainda mais felizes na próxima primavera quando estender uma manta na relva e nos sentarmos os três a brincar. Nas memórias que criaremos quando no verão estivermos os três na piscina, ao fim de um dia de trabalho. Em como vão ser espectaculares as festinhas de anos no jardim, crianças a correr por todo o lado, quem sabe não alugaremos um insuflável. Penso neste natal que se aproxima e em como ele já adora luzinhas e tenho a certeza que vai delirar com a árvore de natal gigante que colocaremos na sala. Nos domingos em frente à lareira. No quentinho da nossa casa, de onde podemos ver a chuva a cair lá fora.

 

Demorou, mas sinto que cheguei onde queria. E isso é maravilhoso.

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O homem regressa hoje ao trabalho, depois de na última semana ter gozado os dias de licença parental inicial que lhe restavam. Não é novo para mim estar sozinha em casa com o monstrinho: o pai já tinha regressado ao trabalho desde o início de Setembro e já estávamos habituados. Mas esta última semana foi maravilhosa. Não fizemos "nada de especial": passamos tempo em família. Com todo o resto do mundo a trabalhar, tiramos estes dias só para nós. Fomos às compras, almoçamos fora, jantamos fora, ficamos em casa. Passamos manhãs a preguiçar na cama e noites abraçadinhos no sofá a ver novela e séries. Dividimos as birras, os cocós e as arrumações. Visitamos família e recebemos amigos em casa. Cozinhamos juntos, conversamos, fizemos palhaçadas. Cantamos para o monstrinho, pegamos um com o outro e rimos muito. Ele desenvolveu uma adoração pelo pai, e o ar fascinado com que olha para ele é qualquer coisa de delicioso. Vivemos (quase) sem horários. Já aqui disse antes: preciso de ficar rica. Não tenho sonhos megalómanos nem quero viver uma vida louca. Queria "" ter todo o tempo do mundo para viver a minha família.

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Não votei

por Mia, em 02.10.17

Por motivos de ter um pequeno demónio nos braços numa mistura de fome/birra, não consegui ir às urnas. Soa a desculpa de mau pagador mas é a mais pura verdade, podia estar aqui com floreados e esconder-me atrás da noite péssima e dos imensos problemas que temos tido mas o facto é apenas um: escolhi ficar em casa com o meu filho e dar-lhe colo, dar-lhe mama, acalmar-lhe a birra. A virose que anda por aí, e o facto de já termos passado pelo hospital esta semana, também contribuíram: não quis arriscar levá-lo a um sítio cheio de gente, mais ainda no estado em que estava. Obriguei o homem a ir, no entanto. E sinto-me mal por ter falhado uma votação, pela segunda vez na minha vida adulta (da outra não estava em Portugal). E vocês? Qual foi a vossa desculpa esfarrapada?

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Ele...

por Mia, em 28.06.17

...atura-me quando choro sem motivo ou estou mal humorada e odeio o mundo.

 

...levanta-se para me ir buscar água/comida/qualquer coisa, mesmo que tenha acabado de se sentar.

 

...pergunta-me sempre se eu quero ajuda para me levantar, quando me vê a espernear feita tartaruga. E ajuda-me, mesmo que eu às vezes sinta que uma grua não era suficiente.

 

...trocou de emprego para poder deixar de viajar e estar em casa connosco, todas as noites, mesmo que isso tenha sido uma facada na sua carreira.

 

...chega a casa e tem paciência para se sentar comigo a conversar, mesmo que eu não tenha nada de especial para dizer e só queira companhia porque passei o dia sozinha, e os meus assuntos sejam tão profundos como "hoje lavei duas máquinas de roupa".

 

...faz o jantar muitas vezes, apesar de ter um dia de trabalho no lombo, compreendendo que eu passei o dia em casa deitada mas tenho dores/estou enjoada/estou fraca.

 

...vem sempre que o chamo para matar um bicho.

 

...continua a olhar para mim com os mesmos olhos e a dizer-me que sou linda, mesmo que eu esteja gorda, corada e despenteada.

 

 

Ele ainda não se apercebeu bem do que vem aí, mas eu tenho a certeza de que ele vai ser tão excelente como pai, como é marido.

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Karma

por Mia, em 15.05.17

Não sei se acontece convosco, mas comigo é recorrente: naqueles momentos em que tenho a arrogância de julgar os outros sem saber, em que cuspo para o ar do alto da minha prepotência, acaba, invariavelmente, por me cair na cabeça. Como naquele dia em que chamei maçaricas às duas miúdas que enfiaram o carro no meio de uma rotunda, sem saber como nem porquê, e nem 10 minutos depois estava quase a voar para fora da autoestrada. Ou quando, há uns dois meses, critiquei aquela colega que foi ter o bebé ao privado quando temos uma maternidade tão boa na nossa cidade, e agora estou aqui cheia de dúvidas. Coisa engraçada, a vida.

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Futilidades

por Mia, em 12.05.17

Não gosto do meu corpo de grávida.



Não me levem a mal. Adoro que o meu corpo esteja a gerar o filho que sempre quis ter, fico-lhe grata por estar a reagir bem e não trocaria este momento por nada.



Mas sinto-me disforme. Ainda que até às 27 (ou 29) semanas tenha aumentado "apenas" 5kg, acho que estão mal distribuídos. A minha barriga de grávida não aparenta o tempo que tem, o meu peito está tão inchado que chega a ser ridículo, e o facto de não ser propriamente alta e não ter engordado da cintura para baixo faz com que me assemelhe a um barril com pernas.


Não me sinto bonita.
Não me sinto grávida, sinto-me gorda.


Estou imensamente feliz, mas o meu corpo não corresponde ao que pensava que seria, e isso, ainda que não me tire o sono, deixa-me triste.

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Há um ano celebramos entusiasticamente o dia da mãe. Estava grávida de dois meses, feliz como nunca tinha estado em toda a minha vida, e festejamos, só os dois, sem ninguém saber.

Ele escreveu-me um postal e comprou-me uma prenda, eu estava no céu, imensamente feliz - não sei se já disse. Mais tarde nesse dia oferecemos a cada uma das nossas mães isto, e assim contamos a novidade. Foi um dia bom, achei na altura, mas hoje não consigo olhar para trás e sentir o mesmo.


Foi um dia horrível, se pensar bem nisso.

 

O meu bebé, que celebrei nesse dia, já estava morto há 3 dias e eu nem tinha ideia. Na verdade só o soube passados ainda mais seis dias. Seis dias depois foi o pior dia da minha vida.


Odeio por isso o dia da mãe. Este ano todos à minha volta sabem que estou grávida, e mencionam carinhosamente que este é o meu primeiro dia da mãe, mas não é. Não quero comemorar, tenho medo desta data, por mim fazíamos de conta que não existia e voltávamos a falar para o ano. Pode ser?

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Sinto imensos sentimentos

por Mia, em 06.04.17

Engraçado como um ser minúsculo que nunca vimos pode ocupar um lugar tão importante na vida de uma pessoa. Sem reparar, sorrio a cada chuto, passo a mão na barriga na tentativa de comunicar com ele, dedico o meu tempo a imaginar-lhe a sua cara, a personalidade, sei lá.

Dou por mim a murmurar-lhe: gosto tanto de ti. Esta pessoa não sou eu, e nem sei quem é.

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Tenho. Nem vos consigo descrever quanto.

 

 

Uma amiga que teve um aborto espontâneo contou-me que, a coisa de que mais se arrepende na gravidez seguinte foi não ter aproveitado o momento. Que estava tão paralisada de medo que se recusava a falar sobre o assunto, a tirar fotografias, a contar que estava grávida, a fazer planos.

Isto ficou-me na cabeça.

 

 

Todos os dias tenho medo que as coisas corram mal, todos, sem excepção.

 

Quando expus a gravidez no blog, tive medo.

Quando anunciei no facebook, perante amigos, colegas e conhecidos, que estava grávida, tive medo.

Sempre que vejo alguém entusiasmar-se com o bebé, morro de medo.

Mas vai correr tudo bem. TEM que correr tudo bem, não é?

 

 

Não quero ser eu a dizer, daqui a uns meses, que não aproveitei o suficiente, que vivi retraída com medo.

 

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Ando assim

por Mia, em 13.03.17

Ora mal-humorada, derrotista, triste e deprimida sem motivo, ora estupidamente feliz só porque sim.

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